quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Mostra Outras Danças (4º. dia) – Alex Santiago, Márcio Reis & Rochele Conde, Andréa Sales, Daniel Pizamiglio, Felipe Araújo e Paulo José

Na Mostra Outras Danças, no 4º. dia de realização, 15 de dezembro, apresentaram-se Alex Santiago, Márcio Reis & Rochele Conde, Andréa Sales, Daniel Pizamiglio, Felipe Araújo  e Paulo José, com propostas orientadas pelos coreógrafos José Luis Vidal (Chile) e John Henry Gerena (Colômbia), em mais de um mês de residência no Projeto Outras Danças: Brasil, Chile, Colômbiaprojeto este promovido pela Funarte e Secult/SecultFor/Quitanda das Artes, com direção artística de Silvia Moura.

Abaixo, mais alguns comentários/impressões para a continuidade deste trabalhos que acabaram de nascer e que podem encontrar outros movimentos de amadurecimentos e continuidades.

PERCURSO NÃO É TRAJETÓRIA LINEAR - Alex Santiago (Residência com José Luis Vidal)
Alex inicia o trabalho sem roupa, com ambiência de sons eletrônicos, projeções de imagens geométricas, mostrando um corpo balético em movimento. Quer falar de solidão e de percurso, por isso, utiliza-se do trocadilho com a sigla GPS, Global Positioning System (Sistema de Posicionamento Global), que é um instrumento de navegação por satélite. Num contexto de residências artísticas, o nome do trabalho é sintomático dos desafios desse estar juntos criando dança. Um solo não quer dizer necessariamente estarmos sozinho, mas pode acontecer, até por decisão nossa de não querer tanta interferência.

O fato é que, mesmo com todo o cuidado técnico com o obra, o corpo dançante de Alex pouco evidenciou aquilo que anuncia. Pareceu-me um corpo já completo, que não duvida de nada, que é cheios de certezas, imponente, altivo, virtuoso, pop, fashion. Onde está, então, o corpo dançante como questão, justamente para não cair nas ditas armadilhas da chamada “roupagem contemporânea”? O que vem a ser esse dançar que fala de solidão? Estar sozinho no palco não dá conta disso. Percurso não é mera trajetória linear, uma vez que há dobras, curvas, bifurcações. Isso mesmo?

DOIS CORPOS PARA UM SÓ MOVIMENTO? - Márcio Reis e Rochele Conde (Residência com José Luis Vidal)
Cor da Alma, de Marcio Reis e Rochele Conde, traz uma proposta de investigação de movimento, de dançar o movimento explorando combinações diversas desse estar dançando a dois. A relação de contato, um com o outro, um homem e uma mulher dançando, as relações de gênero se afirmando no movimento dos corpos, a postura do homem, a postura da mulher, as variações, a dramaticidades, enfim, elementos recorrentes e sentimos familiaridade, por exemplo, com os programas televisivos de competição, onde são exigidos ritmo, harmonia, musicalidade, entre outras qualidades de movimento. Como então romper com esses padrões onde a música conduz a dança e, por conseguinte, a dança deixa-se conduzir? 

UMA DANÇA PARA SENTIR NOVEMBRO - Andréa Sales (Residência com José Luis Vidal)
Andréa Sales, em Novembro, mostrou um corpo forte e preciso organizando-se como dança. Corpo que reverencia o mês de novembro, mês dos finados, mês que aconteceu a residência com Jose Vidal, mês que nos lembra quem já partiu e para onde queremos partir. Andrea foi, na sua dança vivida, colocando-nos nesse ambiente de significados mesmo sem intencionar tanto fazer isso. 

Na dança que ela propôs e propõe, percebemos um corpo que se transforma na continuidade do movimento e na repetição dos gestos. Movimento feito ritual físico e afetivo para dar soltura no corpo, movimentos que se mostram como gestos simples que rompem o espaço e instaurar outros tempos de fruição.  Assim, senti uma confluência das muitas danças de Andréa Sales, toda a força de uma fisicalidade dançante, partilhando sua dança com outras danças, mostrando que insistir nos leva a caminhos outros.

Como este caminho que Novembro anuncia.  

PASSARINHO QUER DANÇAR PORQUE ACABA DE NASCER -  Daniel Pizamiglio (Residência com John Henry Gerena)
Daniel Pizamiglio em Ovos Quebrados para Dançar mostra sua vontade de trabalhar com imagens na cena, propondo estas imagens para além do literal. Quero dizer que ele mostra com essa ideia/imagem  nuances estéticas que nos leva a um riso que se transforma em questão. Mas qual questão? Boa pergunta!

Eis a imagem recorrente: as cascas de ovos brancos sendo carregadas, com aparente esforço, por um corpo vestido de branco e que depois coloca uma especie de gorro de frango com crista vermelha. O que Daniel quer afirmar com isso? Os indícios talvez estejam nessa dança que ele define como performance. Ou até mesmo a constatação que ele já faz performance mesmo estando na dança dançando. Confuso? Talvez.

Por enquanto, o que percebi foi a necessidade de mostrar desenvoltura de palco, a dita presença cênica, um pensamento lógico operando nessa dança/performance que ele busca construir em poucos 5 minutos, arrancando aplausos de uma platéia vibrante de fãs. Será Daniel mais um jovem artista sedento por outros movimentos de dança mais engajados com a arte contemporânea? Prefiro acreditar nisso, que é mesmo o que ele tem evidenciado nos seus experimentos, como em Ovos quebrados para dançar.       

DANÇA PARA OS MENINOS CRUS, de Felipe Araújo (Residência com John Henry Gerena)
Mostrar a beleza do movimento, do corpo pela poética do movimento. Sem grandes questões, a Dança para os meninos crus trabalhou com elementos cênicos que denotam uma idéia de seita ou de grupo, mas, por favor, desapeguemo-nos dessas primeiras associações e busquemos singularidades, algo que a obra nos deu e que não esperávamos. Então, o que essa dança para os meninos crus nos revela?

Felipe desnuda-se dançando enquanto movimento do corpo em suas muitas nuances e tônus. A cenografia criou planos de percepção, a grandiosidade dos panos vermelhos suspensos do teto ao chão deixou o corpo de Felipe menor, corpo de menino dançante, que se contorce para denotar exuberância imatura da juventude, uma crueza que pode ser sentida nessa dança sem grandes pretensões de questionar alguma coisa, objetivamente. Quis e deixou ser esse movimento cru de dançar vermelho.

Vermelho que pode ser vermelho de sangue, de amor, uma rosa vermelha, o que não é o amarelo nem o azul, o vinho de cálice ainda não bebido, finalizando com a saia que, mesmo sem ter conexão de sentidos com o que antecedeu, remeteu-me aos tempos das apresentações do CEM no porão do TJA, quando Felipe dançava somente com uma saia preta (será a mesma saia?). Talvez esta saia junto com essa dança para os meninos crus seja o anúncio de que a dança de Felipe já tem um corpo para outros desafios de dança, será? 

RESTA UM, de Paulo José (Residência com José Luis Vidal)
O que falar da dança de Paulo José? Muitas coisas. Como dançar a dança de Paulo José? Com pele e cheiro. Como não falar da dança de Paulo José? Em silêncio na carne. Como não dançar a dança de Paulo José? Impossível, mesmo com o ombro machucado.

Foi o sentimento de ver Resta um, nome este que me lembrou multidão. Isso, subverteu a analogia com o famoso joguinho das bolinhas azuis, Paulo José dançou, para nós, um solo de uma multidão, é como se cada gesto, movimento e palavra vivenciados no palco fossem a despedida de muitos amores, um adeus que arranha (mas não corta) feito arame farpado. A cenografia tão grandiosa quanto a força de cada palavra falada feito testemunho, juntos fizeram por merecer, corpo feito pele, palavra feito arame farpado na carne. 

Por exemplo, tivemos a oportunidade de assistir a releitura  dele para o solo de Silvia Moura, A cadeirinha e eu, com o guarda-chuva com água pingado de dentro,  denotando um grande apuro estético e sensível, invertendo a lógica do ser guarda-chuva que nos molha ao invés de nós proteger da água e, principalmente, a relação criativa de apropriar-se do material do outro, da dança do outro. 

Hoje quando penso no modo de dançar de Paulo José, percebo complexidades que, por vezes, embasam nossa percepção. Uma trama estética e politica de sentimentos e movimentos, uma dramaticidade dançante, a transformação da palavra em corpo, a performatividade do testemunho/desabafo. Muitas questões estão ali presentes, não somente uma. Escolher uma delas talvez seja uma boa decisão.

Ou não, se pensarmos que um trabalho que turva nossa percepção faz-nos vislumbrar uma outra percepção, não só de dança, mas uma outro modo de perceber que nos permita outras leituras de mundo. Pois de todos os amores, presenciamos com Paulo José a "despedida" enquanto um jogo onde escolhemos e somos escolhidos, ali e acolá, até quando apercebemos que, ao final, só resta um, cada um consigo mesmo, eis a única companhia garantida, não?! 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Mostra Outras Danças (3º. dia): Monica Lopes, Wanderson de Souza, Zayda Moraes, Karine Sousa e Eduardo Gasperin

Por Joubert Arrais

O projeto Outras Danças: Brasil, Chile, Colômbia promoveu semana passada a mostra de trabalhos solos e duos, resultantes das residências com os coreógrafos José Luis Vidal (Chile) e John Henry Gerena (Colômbia), projeto este promovido pela Funarte e Secult/SecultFor/Quitanda das Artes, com direção artística de Silvia Moura.

Continuo aqui o movimento de perceber as montagens enquanto evidências de processos, trabalhos que acabaram de nascer e que precisam dessa relação de ser visto e se deixar ver, uma vez que o público faz parte do amadurecimento da obra e das questões que o artista e obra buscam apresentar/problematizar.

No terceiro dia, quarta-feira, 14 de dezembro, foram apresentados no Teatro da Boca Rica, em Fortaleza, as montagens ...Vertigem..., de Mônica Lopes (São Paulo/SP); Racha, de Wanderson de Souza (Paracuru/CE); Estradas de Terra, de Zayda Moraes (São Luis/MA); Caso por Acaso, de Karine Sousa Costa (Flecheiras, Trairi/CE); e Entre Meios, de Eduardo Gasperin (Naviraí/MS).

UMA DANÇA À DERIVA - Monica Lopes (Residência com José Luis Vidal)
Monica Lopes dançou ... Vertigem..., uma dança construída com espelho em moldura todo trincado. Moveu-se com o espaço a partir dos reflexos de luz desse grande espelho quebrado mas inteiro, pelo qual fomos sensibilizados pelo jogo de sombras quando ela movimentava o espelho.

Tive dificuldade e ainda tenho um pouco de perceber para onde Monica com este trabalho desejava/pretendia nos levar. Havia certo cansaço em seu corpo, certa hesitação, talvez daí vem o nome, vertigem. Uma dança à deriva, mas um corpo à procura. Olhar-se numa espelho quebrado é ver não apenas uma imagem de si, mas várias, em recortes diversos e diferentes, imagens transfiguradas geometricamente, pedaços de alguéns, intimidade de quem se olha no espelho à espera de outros eus.

Se esse era, de fato, o que queria causar, conseguiu apenas criar uma potência criativa e instigante, porque para quem era público, mesmo próximo sentado no palco, só conseguiu perceber os reflexos. Talvez alguém que teve a sorte de ficar mais próximo do espelho tenha conseguido adentrar nesse universo imagético e misterioso de vertigens de si que a obra buscou construir cenicamente. 

CORPO DESPORTIVO - Wanderson de Souza (Residência com José Luis Vidal)
Wanderson de Souza mostrou na obra Racha um diálogo entre algo de seu cotidiano, jogar futebol, e a possibilidade de investigar os padrões de corpo e de movimento nesse jogo/esporte coletivo.

Não se trata tanto de ser o futebol seu tema, mas, a partir desse ambiente esportivo, evidenciar um tipo especifico de corpo e de como esse se organiza na cena. Se relacionarmos o dançar com o jogar, temos ai certa cumplicidade. Dança enquanto modo especializado do corpo se mover. Jogo como estratégias de relação entre corpos.

Mesmo sem problematizar essas questões no solo Racha, Wanderson fez valer a técnica do balé que construiu seu modo de lidar com o corpo. A escolha do nome “racha” pode ainda levar a obra, se assim quiser investigá-la, assim, só pra termos uma idéia, racha é uma partida recreativa de futebol, com regras livres, geralmente sem grandes preocupações com tamanho do local onde se joga e com as regras, uniformes, impedimentos, faltas, tempo de jogo, sendo tudo resolvido no consenso dos jogadores.

Logo, Racha, por ser um solo, trouxe no seu acontecer um idéia de coletividade individual de quem joga não só pra si, mas que pode também jogar para e com o outro.

DANÇA POPULAR, CORPO POLÍTICO - Zayda Moraes (Residência com José Luis Vidal)
Zayda Moraes tem uma corporalidade forte, construída e alimentada na cultura popular. É um corpo político engajado, e não apenas preocupado, com as questões de identidade. Dentro e fora do palco, ela e sua dança ritual evidenciam um corpo de mulher negra ativista nordestina brasileira.

Em Estradas de Terra, percebemos esse paradoxo entre arte/dança e ativismo, que oscila entre a preocupação artística e o engajamento político. Em um dos ensaios, percebi a força do seu corpo dançante, que na roda envolveu quem estava lá perto, até mesmo que não estava. O tambor traça o ritmo e o corpo é reverberador de energias e intensidades.

O desafio é que, no palco e com platéia, o ritual pode perder justamente esse caráter energético e intenso, como aconteceu, em certa medida, na apresentação final no palco do teatro da Boca Rica. Não é algo ruim, uma vez que outros fatores estão envolvidos, em mais de um mês de residência.

Contudo, é preciso olhar atentamente para o trânsito entre o que acontece fora do palco e dentro do palco. São acontecimentos singulares, então, como devemos percebê-los em seus procedimentos, para a energia e intensidade serem outras, mas não menos fortes e reverberadoras?

PARA CASAR DANÇANDO - Karine Sousa Costa (Residência com John Henry Gerena)
Karime Sousa Costa fez por merecer a chuva de arroz que levou do público. Em Caso por Acaso, ela mostrou com competência sua força dramática, um corpo que transita bem entre o trágico e o cômico, até mesmo, com momentos onde o teatro e a performance, outras duas linguagens, fizeram-se presentes.

O solo foi iniciado com uma seriedade, como um cerimônia mesmo, corpo compenetrado, movimentos exatos e lentos, um vestido de noiva, o desejo da mulher em casar, vontade de casar dançando (ou dançar cansando), nem que seja com ela mesma, o ritual do casamento como uma grande festa que ainda permeia o imaginário de toda mulher.

Confesso que o titulo criou em mim expectativas. Fiquei pensando da voz de Tetê Espindola cantando "Escrito nas Estrelas", que diz no refrão "caso do acaso". Depois pesquisei e encontrei uma música com o nome igual, "Caso por Acaso", da dupla César Menotti e Fabiano. Como lidar então com essas expectativas que criamos em relação às obras que assistimos? Inibindo-as. Como o artista, em suas escolhas, pode considerar que ele também gera expectativas? Não sendo inconsequentes.

Por isso enfatizo tanto a importância na escolha do nome da obra como ativador de idéias e associações, mesmo enfatizando também a necessidade de inibir nossas expectativas quando formos ver/assistir um trabalho artístico.

Assim, como aconteceu no solo de Karine, poderemos ser surpreendidos em suas emergências (algo não previsto mas engendrado no acontecimento da obra).

EMOÇÕES E SENSAÇÕES - Eduardo Gasperin (Residência com John Henry Gerena)
Entre meios, de Eduardo Gasperin, foi um momento emotivo de um artista em situação de palco. Fez valer o prazer e a loucura de estar lá em cima, um corpo em catarse que criou sensações diversas no público, quando se move e se relaciona com espaço pela água que era lançada para todos os lados, escorrendo até as arquibancadas.

Entretanto, temos que ter cuidado e rigor em não considerar a arte apenas como um lugar que gera sensações, principalmente, na dança, que acontece no corpo e que é no corpo que problematizar questões, instabiliza visões de mundo. Fiquemos atentos aos usos de elementos cênicos como a água, que já é considerado um clichê da dança contemporânea, uma vez que, na maioria dos casos, o uso não se justifica nos tantos esforços e acaba com causar certos constrangimentos.

Estarmos conscientes dos clichês ou mesmo do uso recorrente de algum elemento cênico por outros artistas ajuda-nos até mesmo a usá-los em nosso favor, percebê-los como uma tendência a ser questionada, evitando, assim, gastarmos energia à toa com aquilo que menos importa. Se assim fizermos, poderemos investir no cênico sempre lembrando e nunca esquecendo do corpo como problematizador e evidenciador de um mundo de desejos, vontades e discursos.

E assim, ser e poder ser corpo, esse lugar politico que nos localiza no mundo, ser um corpo que danca e que, ao dançar, é pensamento, é corpo pensante/pensamento.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Mostra Outras Danças (2o. dia): Jamille Morais, Dario Albuquerque, Ariana Andrade, Leandro Neto e Fabiano Veríssimo

Por Joubert Arrais

O projeto Outras Danças: Brasil, Chile, Colômbia continua com a sua mostra de trabalho resultantes das residências com os coreógrafos José Luis Vidal (Chile) e John Henry Gerena (Colômbia), projeto este promovido pela Funarte e Secult/SecultFor/Quitanda das Artes, com direção artística de Silvia Moura.

Nesta mostra, o movimento é perceber as montagens enquanto evidências de processos, trabalhos que acabaram de nascer e que precisam dessa relação de ser visto e se deixar ver, uma vez que o público faz parte do amadurecimento da obra e das questões que o artista e obra buscam apresentar/problematizar.

Seguem abaixo comentários/impressões de cinco montagens apresentadas ontem, 13 de dezembro. Dentre elas, quatro aconteceram no Teatro da Boca Rica: Moldura, de Jamille Morais (Fortaleza/CE); Souvenir, de Dario Albuquerque (Fortaleza/CE); Andar.Ilha, de Ariana Andrade (Salvador/BA) e O que você vê é o que eu danço?, de Leandro Neto (Fortaleza/CE). Já Forca, de Fabiano Veríssimo (Fortaleza/CE), aconteceu no térreo do Alpendre.


CORPO-MOLDURA-IMAGENS-QUE-DANÇAM (Residência José Luis Vidal)
Jamille em Moldura cria distâncias e borrar nossa percepção. Imagem e corpo fundem-se, e sendo mais específico, confundem-se em certa medida. Contudo, a referência ao balé romântico é evidente. A música e a imagem da bailarina Marie Taglioni nos mostra isso, mas, mesmo sem saber de quem trata a imagem projetada, é claro que é a imagem de um quadro pintado de uma bailarina clássica.

Assim, Jamille faz ver no corpo um pouco da sua história da dança, parece ser mesmo um lugar tranqüilo para ela, esse lugar do balé no seu corpo. A obra mostra isso, quando enaltece e não evidencia tanto uma problemática maior desse corpo balético. Ou evidencia se associamos a palavra “moldura”, que nomeia a obra, à ideia de enquadramento, algo fixo, possível?

Então, uma boa questão para Jamille é: a obra quer/deseja/pretende/busca falar do balé clássico ou desestabilizar a imagem que temos desse corpo balé por meio do ambiente tecnológico de imagens fotográficas projetadas? Que presença é preciso criar? Que ausência é preciso perceber?


POR TRÁS DO ROSTO, UMA DANÇA PARA LEMBRAR – Dario Albuquerque (Residência John Henry Gerena)
Dário, em Souvenir, usa mascaras. Corpo que esconde o rosto. O inicio do trabalho cria um clima enigmático, misterioso, um corpo sem identidades ou com muitas identidades que se atravessam. As escolhas apresentadas na obra nos leva a pensar que se trata de uma obra que discute, ou melhor, sugere questões de gênero.

Um corpo masculino vestindo um sutiã e sempre a esconder o rosto, e quando não o esconde, fica de costas para o público. Mas há algo mais por trás de tudo isso, sinto. Souvenir é uma palavra que quer dizer lembrança, para lembrar. 

Então, ele dança uma dança para a gente lembrar dele, ou lembra de que, de quem?


NA ILHA QUE ANDA, ELA PODE DANÇA MAIS – Ariana Andrade (Residência José Luis Vidal)
Ariana Andrade dançou Andar.Ilha, colocando o público no palco delimitados por folhas secas, formando um grande retângulo. Enquanto proposta, esta obra instigou as pessoas presentes a um olhar mais próximo para perceber o modo como seu corpo desenha linhas no espaço. Contudo, poderia e pode aproveitar melhor essa relação de proximidade para uma interação que considere o público como participante e não apenas como observador passivo.

Nesse movimento, Ariana busca mostrar estados corporais, por meio da metáfora-trocadilho que dá nome à obra: Andarilha, Andar, Ilha. São imagens potentes, os trocadilhos tem uma força performativa surpreendente. Logo, Ariana precisa investigar com mais cuidado, rigor e ousadia, partindo do senso comum do que essas imagens sugerem e se aproximar mais da ideia de metáfora enquanto cognição, ou seja, a metáfora entendida não como comparação, ilustração, mera figura de linguagem.

Uma questão interessante pode ser: como esse corpo andarilho pode reconfigurar o espaço que dança dando mais volume ao movimento, acionando vetores de força que a desloque e faça, de fato, sentirmos esse corpo andarilho(a)?


O QUE VOCÊ DANÇA EU VEJO? – Leandro Neto (Residência com José Luis Vidal)

Leandro Neto, em O que eu danço é o que você vê?, traz no titulo uma provocação relacionando corpo, dança e percepção. Entra em cena, sim, dançando, experimentando movimentos no espaço, como se desenhasse algo com as extensões de braços e pernas. Mas não é só isso, é? 

O som de água cria uma ambiência junto com a água que escorre lentamente no chão escuro do linóleo, enquanto se desloca pelo palco, ora em diagonais, ora se distanciando para o fundo do palco. Leandro fez escolhas, há movimentos coreografados como se quisesse acordar o corpo para ser dança. 

Contudo, o que ele dança é o que vejo? O que você dança, Leandro, é o que vejo? Que propósito há nesse dançar sob água a escorrer no seu corpo e nos nossos ouvidos quando o que é colocado como obra é se o que eu danço é mesmo o que você vê?


NOS ENCANTOS DA TECNOLOGIA – Fabiano Veríssimo (Residência com John Henry Gerena)

Na obra Forca, Fabiano Veríssimo, junto com a intervenção do artistadesigner Diogo Braga, partilha uma dança de imagens gráficas projetadas, evidenciando uma vontade e um desejo de fazer uma dança com mediação tecnológica. Do que foi apresentado, muitas questões vieram à tona, possivelmente, o trabalho mais paradoxal de todos até agora.
Falo isso como algo que engrandece a obra por esta ser potente enquanto possibilidade de investigação tanto nessa “dança tecnológica”, como também e principalmente na proposta “forca”, brincadeira coletiva de palavras, ações e conseqüências.

Quero dizer, Forca trata-se de um trabalho que mostra bem como a dança ainda precisa se encantar desencantando-se dos recursos tecnológicos, que precisamos criar anticorpos para que situações cênicas não se limitem a sensorializar o público, mas que se tornem artísticas quando se esforça para desenvolver procedimentos que não engessem a dança, que a dança não seja mero instrumento da alta tecnologia.

Outra provocação, que tem tudo e muito a ver com a Mostra Outras Danças: Forca é um solo ou é um duo? Reformulo: o que define uma obra ser um solo? Como lidarmos com esses colaboradores interventores e como eles se incorporam a obra e nem sempre conseguimos perceber.

Uma ideia é pensarmos: qual dos corpos é que é o corpo problematizador? No caso de Forca, minha hipótese é que foi Diogo quem deu algum sentido a proposta, fazendo adormecer o corpo dançante de Fabiano.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Mostra Outras Danças (1o.dia):
Roberta Bernardo, Fátima Muniz e Vianna Júnior


O projeto Outras Danças: Brasil, Chile, Colômbia começa esta semana as apresentações de trabalhos resultantes das residências com os coreógrafos José Luis Vidal (Chile) e John Henry Gerena (Colômbia), projeto este promovido pela Funarte e Secult/SecultFor/Quitanda das Artes, com direção artística de Silvia Moura.

No primeiro dia, 12 de dezembro, foram apresentados, no Teatro do Dragão do Mar, as obras Marias de Mim, de Roberta Bernardo (Fortaleza/CE); Dejà Vu, de Fátima Muniz (Fortaleza/CE), ambas orientadas pelo coreógrafo John Gerena; e Proposições para o Infinito, de Viana Junior (Itapipoca/CE), orientado por José Luís Vidal.
Roberta, Fátima e Viana Jr. - Fotos: Alex Hermes
São montagens enquanto evidências de processos, contextualizadas pela relação coreógrafo e intérprete, alimentadas por um mês de encontros, conversas e ensaios. 

Partilho aqui algumas impressões/comentários com potências críticas.

MARIAS DANÇANTES DE MIM (Residência com John Henry Gerena)
Roberta dançou suas Marias de tambor, roda, dança íntima. Ela dançou sua intimidade em Marias de Mim. A força do cabelo forte e bom, isso ela tem e não quis ser panfletária. Sentada em uma cadeira, ela usa uma camisola branca, mas não está à espera de ninguém, mas que algo aconteça. Sapatos vermelhos ao pé da cadeira, prefere dançar descalça.

Microfone ao lado, ouvimos a fala que sai desse corpo de muitas Marias que fala de si para si, consigo. São desabafos. Ou, então, comunicados de um corpo que busca uma dança nas muitas identidades que habitam uma só, identidades que transitam e que nos forjam diariamente humanos dançantes (dançantes humanos). 

Pois sim, dançou com música, entremeando-se nas luzes artesanais na altura da sua cintura-corpo, corpo este que se modifica e modifica. Pois sim, ela dança, parece mesmo gostar daquela dança molejante que cantarola brilhantina para cabelo marombado. Ora em voz própria, voz de Roberta, ora na voz de outra. Prefiro a voz delicada dela própria. Roberta tem uma voz linda, doce, que nos aproxima daquilo que pretende ser dança no seu corpo. Contudo, ela canta em duas vozes. Será mais uma Maria a querer habitar esse corpovivência de dança?

A mão arruma o cabelo, ela segura bem esse cabelo forte de mulher mestiça/negra, e faz mover o corpo, corpo move-se e se movimenta, senti muito isso. E lembre-me das mãos, dos gestos, dos pés descalços, dos rebolados, novamente dos sapatos vermelhos não calçados mas que penteiam um cabelo que precisa “arrumado”, é isso? Então onde está a força senão no cabelo? Está no corpo de Roberta em seus/nossos muitos lugares, corpos e pessoas, é?

EU JÁ VIVI/DANCEI ISSO? (Residência com John Henry Gerena)
Fátima começa Dejá Vu sentada numa cadeira de muitas que compõem o cenário. Cadeiras como pano de fundo ou segundo plano de um corpo que se move e parece viver o já vivido no não vivido dançado. Ela está vestida apenas com uma camisa preta masculina, mexe o cabelo, contando os fios, sente, presente e pré-sente algo e me questiono: aquilo que vivemos é, de fato, o que vivemos?

Há essa sensação durante toda a apresentação de Fátima: alguém que quer ir mas não consegue ou alguém que já está indo e quer retornar. Deja Vu, palavrinha psicológica que nos questiona: eu já estive nesse lugar escuro com luzes e ventos que movem um véu branco sobre as cadeiras enquanto um corpo dança uma dança ainda não vivida e por conta disso já dançada?

Luzes, cadeiras, muitas cadeiras e tenho a sensação que há algo mais por trás de tudo isso que Fátima dança e parece ainda implícito, mas onde?

A música não é música tocada, é sim depoimentos cantarolados, ou mesmo, uma letradepoimento recitado que fala de muitas coisas, principalmente, de mudança: the world was changing (o mundo está mudando).

Um sentar levantar ir ao chão, cair, rolar, caminhar lentamente, onde esse corpo dejà vu quer chegar ou onde esse corpo pensa querer chegar, melhor, quem esse corpo que encontrar? Uma memória perdida por não ter sido vivida.

A obra nomeia-se de desejos, iminências, suposições ou realmente algo que foi bem vivido e que já não mais carece ser vivido e, contraditoriamente, insiste em querer viver e ser o que já foi sem ser. Mas é preciso ir mais fundo, mais preciso nas imagens que a contaminaram no processo (obras da fotógrafa Brooke Shaden), é preciso sim, há algo implícito bem especial nessas escolhas, sugerido apenas na movimentação.

UMA DANÇA PARA O INFINITO (Residência com José Luís Vidal)

Viana Júnior dança Proposições para o Infinito sem sair da pedra rocha pedaço de mundo. Ele treme, é corpo trêmulo, que se move em gestos repetidos de combate. Imagens de um corpo santo? Os gestos recorrentes criam uma prontidão para esse infinito poético que a obra vislumbra.

O termo “proposições” pode nos dizer algo que esteja na obra, e diz, filosoficamente. O infinito é então um futuro como sentença, um juízo que Viana tem/faz do (seu) mundo. Propõe sim imagens que representam a insistência, a devoção e a transformação. Mas há algo mais, pressinto.

A água cai do céu e Viana Junior permanece na pedra em estados físicos e sonoros que são escape e escapam do/no corpo. Permanece ficando quase imóvel, mesmo que insistentemente trêmulo. Permanece também se transformando em corpo inquieto, fisicalidade inquieta e inquietante.

Pelefigurino se desfaz no movimento que ora parece querer ficar na pedramundo que o suporta, que lhe é suporte; ora parece mesmo querer romper o invólucro que a pedramundo cria em torno dele e com ele.

Por que então treme e treme tanto? Tentativas de vencer a inércia e se libertar? Ou tentativas de ficar sendo o mesmo resignado? Um caminho talvez seja deixar ser.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Secult é só descaso com a Cultura no Ceará

No começo do ano de 2011, escrevi palavras esperançosas sobre a nova gestão da secretaria de cultura do estado, num texto crítico de retrospectiva do que aconteceu neste ano para/com a dança no Ceará: Que nome nós é próprio na Dança?

Talvez por acreditar que, mesmo com os níveis baixo de comprometimento, a classe artística havia conseguido ganhos consideráveis, como um edital mais próximo, ou menos distante, da realidade das linguagens artísticas, por exemplo.

Agora me entristece ver que nada foi feito, evidenciando o grau de atraso da nossa secretaria estadual de cultura, quando não faz o mínimo, que é ter abertura para o diálogo para, assim, conhecer o contexto cultural. Pelo menos, era para ser.


Se a gestão de Auto Filho como secretário de cultura do governo anterior, já eram nítidos os problemas e perdas consideráveis para a pasta da Cultura. O que não imaginávamos é que tal situação poderia ficar mais grave, isso mesmo, o que ninguém imaginava é que ainda poderia ficar pior. E está mesmo!

Chegamos em dezembro, o ano já findando e o único sentimento que temos é de indignação, com letras bem grandes. Dois assuntos evidenciam isso: o VIII Edital Ceará de Incentivo às Artes 2011 e a atual situação do Curso Técnico em Dança - CTDanca/Ceará.
Alunos da 3a, turma do Curso Técnico em Dança (IACC/Secult/Senac). 
É fato. A classe artística não está satisfeita com a atual gestão do Governo Estadual. É muito descaso com a Cultura. Enquanto outras instâncias, como a Prefeitura e o Governo Federal, vem avançando em suas políticas de atuação (outro assunto que merece debate), a Secretaria de Cultura do Estado - Secult/CE, na gestão do Governador Cid Gomes, só demonstra pouco caso com o contexto que dá sentido a sua existência administrativa dentro de um governo. Muitos são os motivos. 

Há muita dificuldade para conseguir marcar reuniões que, quando é um só agendada, acaba por ser desmarcada um dia antes, por motivo de viagem ou outra reunião de última hora. É sempre a mesma justificativa.

A dança, em especial, tem sido uma das mais prejudicadas com essa negligência/descaso/desinformação.

Recentemente lançado, o Edital das Artes da Secult (VIII Edital Ceará de Incentivo às Artes 2011) teve um regresso nas conquistas, desconsiderando o que foi acordado na gestão anterior, com relação às categorias e à distribuição de apoio. Passaram por cima, pois o que está lá neste edital não condiz com a especificidade de cada categoria e o que foi construído em um dos poucos momentos de dialogo no governo anterior. 

Por exemplo, na categoria "Pesquisa" eram 2 prêmios de R$ 20 mil cada, no edital 2010; agora são 8 prêmios de R$ 5 mil. Assim, o total de R$ 40 mil foi dividido segundo uma lógica meramente quantitativa, uma vez que o valor atual impossibilita a boa realização de uma pesquisa, fato presente nas primeiras edições desde edital. Ou seja, representa um regresso e evidencia a indisponibilidade para um diálogo, já que a classe artística da dança sempre este em prontidão.

Parece mesmo ser uma mera decisão de gabinete, essa da Secult, desconsiderando a complexidade da dança como área cultural e não merecendo ter o nome que tem: um edital de incentivo às artes? Como assim? 

A saber, o Banco do Nordeste, que já vem estreitando relações de forma positiva com a Dança, por meio  da programação do seu centro cultural em Fortaleza e Juazeiro do Norte - CCBN's,  também lançou um edital onde reconhece a especificidade da dança (Edital Programa Banco do Nordeste de Cultura 2012). Neste edital a dança está como área independente, dada sua força local e suas demandas específicas nas chamadas artes cênicas.

Ainda, o Curso Técnico em Dança - CTD está há dois meses está sem recursos, no andamento da sua terceira turma, e tem sido mantido por uma ação voluntária de aulas de ex-alunos do curso. Contudo, decidiu suspender as aulas até que algo seja feito.

Neste assunto, o descaso segue o mesmo padrão. O Fórum de Dança tem marcado reuniões com Isabel Fernandes, diretora de Ação Cultural do Centro Dragão do Mar, no entanto, as tentativas são frustradas, sendo desmarcadas rotineiramente. Na última tentativa de uma conversa, uma reunião que aconteceria com ela esta semana foi desmarcada sob alegação de outra reunião, agendada na última hora. Houve até uma visita surpresa, por parte dos alunos da 3a. turma, que correm o risco considerável de não se formar, mas, ao que pareceu, foi uma conversa evasiva com nenhuma decisão acertada ou esclarecimento convincente.

Tal comportamento é contraditório e incoerente, porque o Centro Dragão do Mar é a instituição idealizadora e realizadora do projeto do Curso Técnico em Dança, em parceria com a Secult e Senac, sendo seu único projeto de formação que ainda existe, mantido gestão após gestão graças ao apoio da classe artística.

Importante enfatizar que o CTD tem cumprido uma função decisiva no contexto formativo em dança no Ceará, que hoje conta com a graduação em dança pela UFC, iniciada este ano somente. Antes disso, já há 7 anos, é o espaço que vem acolhendo os artistas e pessoas interessados em uma formação especifica em dança. Consideremos também o reconhecimento nacional de alunos formados no CTD, dado seu nível de qualidade.

Por isso, o atraso no repasse de verbas, sem qualquer sinal ou previsão de resolução, pode prejudicar o andamento da 3a. turma, tornando inviável sua formatura, contribuindo ainda para o aumento do índice de evasão e desistências dos alunos, muitos deles bem desestimulados.

Há mais coisa, sei, sabemos. 

A situação do Curso Técnico em Dança e o recente edital das Artes da Secult são os evidenciadores de uma gestão estadual pouco ou quase nada sensível às demandas dos artistas e de um atraso quando desconsidera a importância da dança no processo de desenvolvimento artístico e cultural do nosso estado. 

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Precisamos de eventos de dança que qualifiquem
as relações entre obra, artista e público

O Festival Contemporâneo de Dança, que começou no início do mês de novembro, apresentou uma programação enxuta, focada no fortalecimento das relações que já vem estabelecendo desde a primeira edição, em 2008. Na edição 2011, foram treze dias com apresentações inéditas como também a participação de artistas que figuraram nas edições anteriores, estabelecendo, assim, uma relação de continuidade tão vital para os eventos ditos festivais, mostras e bienais, pois é uma forma eficiente de acompanhar a produção de um artista e de tantos outros e, assim, fomentar a produção de conhecimento sobre tais artistas, suas obras e como elas reverberam. 

Só pude assistir os dois últimos dias, 12 e 13, nos quais, tive a oportunidade de ver o solo Quando O Sol Brilha Mais Forte a Sombra é Mais Escura, de Marcelo Gabriel, dançarino e performer mineiro que, há tempos, vem trabalhando o assunto "corpo" em suas vertentes culturais, antropofagizando relações colonizadas, eurocêntricas e totalitárias. 
Marcelo Gabriel (Belo Horizonte - MG).
Foto: Divulgação.
Mesmo causando certos incômodos propositais na interação com o público, nem sempre bem recebidos pela "vítima", Marcelo Gabriel cria uma situação, onde o corpo sujeitado dos terrorismo nazifacistas é nosso corpo contemporâneo, pois evidencia uma corporeidade esquizo e homogeneizante, quero dizer, um corpo que processa as informações do mundo de modo padronizado, engole a seco, mas, nem por isso, o corpo sai ileso.

Outro trabalho foi de uma artista espanhola Paz Rojo (Madri), Lo Que Sea Moviéndose Así, que teve a colaboração com Christian Duarte, que na quinta e sexta, apresentou Hot 100 – The Hot One Hundred Choreographers, solo também dançado na Bienal Internacional de Dança do Ceará, na programação parceira com o Festival Ponto.CE. 

Paz Rojo (Madri). Foto: Divulgação.
Partindo do que Paz diz “Lo que sea moviéndose así”, é dizer, um CORPO: […] uma traição. Vender-se ao seu inimigo. […] “Corpo” é o nome dos limites impostos. […] Este corpo é sempre o corpo dos outros. […] Um corpo que foge a sua linguagem, atrevo-me a suspeitar…", podemos pensar em trabalhos que buscam evidenciar um modo singular de se mover no espaço, que tem a ver também com um modo de organizar esse mover-se como dança. 

Neste caso, Paz nos mostra um corpo inquieto que se move para poder estar/permanecer vivo em movimento, "estar" como ação de estados, "permanecer" como continua transformação, arrisco dizer. Uma obra-processo que, na factualidade da apresentação, partilhou estabilidades testadas mas também que emergiram em tempo real. 

Tive ainda a oportunidade de assistir a palestra "Corpomídia", ministrada por Rosa Hércoles, dramaturgista e coordenadora do curso de Artes do Corpo, da PUC/SP. Foi importante acompanhar as ideias da pesquisadora, quando já tinha lido textos sobre a Teoria Corpomidia, que, desde 2002, concebida e difundida pelas pesquisadoras Helena Katz e Christine Greiner. A partir dessa teoria, embasada nos estudos recentes sobre ciências cognitivas e sobre a evolução humana, os estudos do corpo ganham outra existência, pois passam a estar livres dos dualismos que engessa as relações com o mundo.

No caso da dança, que acontece no/pelo corpo, o pensamento que emerge na relação com abordagens  não-dualistas (que não separa mente e corpo, teoria e prática, entre outras) é um pensamento que passa a questionar concepções não mais cabíveis, como a dança como arte do indizível, ou mesmo que movimento é apenas ação física visível, dentre outras contribuições.

Importante essa palestra, pois cria um ambiente crítico inserido dentro da programação, uma vez que possibilita teorizamos nossas experiências, formularmos nossas hipóteses sobre aquilo que o artista decide partilhar conosco como obra e a própria dinâmica do festival.  

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O movimento é pensar as muitas histórias da dança

Na oitava Bienal Internacional de Dança do Ceará, que teve inicio semana passada, o movimento é fazer o público pensar as muitas histórias da dança.  Nos seus quinze anos de existência, o evento cearense traz na programação obras autobiográficas ou que versam sobre a memória de quem dança.

Como é o caso do espetáculo CEDRIC ANDRIEUX, do coreógrafo francês Jerome Bel, apresentado no último sábado, na abertura da Bienal, no palco principal do Theatro José de Alencar. O título da obra é o nome do bailarino, o que já diz muito nesse nomear uma obra com seu próprio nome. 


Durante 80 minutos, o bailarino Cedric falou sobre os grandes nomes da dança internacional com quem ele trabalhou nos seus vintes anos profissionalmente, como Merce Cunningham e Trisha Brown. A dramaturgia linear e com muito texto falado causou incômodo e certa chatice nas pessoas, por ser algo ainda pouco habitual para um publico que quer ver dança. Mas isso, em certa medida, foi proposital e quem conseguiu ter calma acabou por descobrir a relevância humana desse falar de si.

Vale lembrar que, em 2007, a sexta edição da bienal cearense foi aberta com outro solo autobiográfico de Jerome Bel, com o nome da bailarina carioca ISABEL TORRES, à convite do Festival Panorama de Dança (RJ).

Outro momento emocionante foi ver Angel Vianna, um grande nome da historia da dança no Brasil, ainda atuante nos seus 83 anos de vida, sendo mais de sessenta dedicados à arte da dança e do movimento. No espetáculo QUALQUER COISA A GENTE MUDA, a bailarina e professora de dança Angel Vianna mostra um experimento de movimento com a bailarina carioca Maria Alice Poppe, emocionando a platéia lotada do Teatro do Dragão do Mar, nesta quarta-feira. 

A bailarina e professora de dança Angel Vianna (foto: Renato Mangoli).
A coreografia é de João Saldanha e seu atelier de coreografia, também coreógrafo do espetáculo NÚCLEOS, dançado no dia anterior e premiado recentemente pela Revista Bravo. Nesta obra, João Saldanha se inspira numa proposta do artista Hélio Oiticica, com o mesmo nome do espetáculo. Os quatro dançarinos apresentam solos de muito movimento e incrível interpretação, junto com uma cena trabalhada em intensidades diferentes de luz. Corpos, movimento e iluminação se revezam ao som de música popular brasileira. 

No entanto, a obra perde força cênica ao ter sido apresentada aqui em Fortaleza no formato palco italiano, deixando a platéia distante e apenas na contemplação. Quero dizer, manter o publico pouco próximo não foi uma decisão coerente quando a proposta de Helio Oiticica era enfatizar a liberdade de deslocamento do espectador e, assim, expandir a experiência sensorial, aguçar os sentidos, até mesmo para criar outro tempo de fruição estética, fazer da obra um lugar um ambiente penetrável, corporalmente. 


sábado, 22 de outubro de 2011

Um corpo que diz uma dança que faz

Em 2009, não pude assistir a obra Maneries, de Luiz Garay e Co. Buenos Aires, dançada em solo e co-criada por Florencia Vecino, na quarta-feira (19), no Teatro Sesc Senac Iracema, pela Bienal de Dança do Ceará. Mas não foram poucos os bons e excelentes comentários quando soube que haveria uma segunda apresentação por aqui.

Curiosamente, desde o ano passado, acabei por assistir trechos desse trabalho na Internet, como também li o texto de divulgação, em suas várias versões autorizadas ou não, quando elaborados pelas assessorias de imprensa. Nesse texto, ou esses textos, uma afirmação deixou-me instigado - "o corpo como material linguístico" - e foi com essa afirmação, transformada em hipótese, que fui assistir a segunda apresentação do trabalho argentino, pela programação do Festival de Cultura da UFC, junto à programação da VIII Bienal cearense. 

O corpo como material linguístico é, então, um assunto muito caro e que a obra Maneries é generosa como contribuição artística pra elaborarmos isso enquanto público, artistas, pesquisadores. 



O inicio do trabalho é decisivo pelo poder sinestésico (alteração dos sentidos - visão, audição etc) que cria em nós uma percepção especifica para o trabalho. A percepção de um corpo dançando, sua força cinestésica (de cinestesia, propriocepção, habilidades corporais de se relacionar com o espaço, por exemplo) nasce dessa relação entre como me percebo diante de algo que se faz percebido e percebível. Ou seja, precisamos nos preparar para ver e, então, perceber, junto com o artista e suas estratégias cênicas para ser percebido e fazer perceber aquilo que o motiva como criador.

Sem mais rodeios, Maneries desenvolve uma presença corporal que atiça os muitos significados que faz um corpo em movimento através da dança. Um corpo que anuncia o que faz fazendo, um corpo que diz o que faz na própria ação de fazer dança pelo movimento. É coreográfico, é performativo.

Foto: Fernando Miceli.

É sim coreográfico no sentido de um grau de estabilidade dos movimentos que constroem imagens de um corpo que é andrógeno para ser virtuoso para ser engraçado para ser viril para ser feminino para ser delicado para ser erótico para ser esgotado para ser energético para ser belo para ser feio para ser estranho para ser robótico para ser delicado para ser corpo de bailarina que pode quase tudo para ser corpo qualquer para ser muitos corpos em um só. Metáforas do corpo que estão longe de ser mera analogia ou comparação, mas metáfora como associação cognitivas de experiências corporais, ou seja, metáfora como acionamento mental daquilo que é experenciado como corpo. 

É performativo pois se coloca diante desse desafio linguístico, que parece mesmo ser um principal pressuposto da obra. Desestabiliza a ideia de "presença cênica", algo comumente entendido como pré-concebido e sem vida, e nos leva a compreender essa presença como algo vivo, cheio de energia, que trabalha as probabilidades e recorrências coreográficas do/de movimento no corpo da intérprete. Ao fazer isso, cria um jogo imagético de possibilidades de organizar em um só corpo muitas evidências semiósicas (signo em ação no mundo), que me faz dizer que se trata de um bodybrainimagestorm (traduzindo, um corpotempestade de imagens corpocerebrais).   

Interessante pensarmos ainda na importância da figura do intérprete na dança contemporânea, meio esquecida no frisson dos últimos tempos que faz acreditar que só existe intérpretescriadores. Ver uma ideia florescer e criar corpo coreográfico dançante no corpo de outro ainda é um desafio a ser convocado.

Tudo isso pode, e muito, contribuir para nossas danças dançadas e não apenas idealizadas segundo parâmetros estéticos exportados e, muitas vezes, impostos. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Que danças serão lembradas? E esquecidas?

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Não consigo lembrar muito bem as minhas primeiras danças, quero dizer, não consigo lembrar as danças que assisti antes mesmo de querer dançar. Por que lembrá-las? Ou melhor, por que as esqueci?

Quando decidi morar em Lisboa, eu tinha uma vontade: assistir um espetáculo de Pina Bausch. Mas no ano que decidi ir, 2009, ela faleceu meses antes da minha partida. Recentemente, no entanto, tive a oportunidade de ver dançando Steve Paxton, o mentor do contato-improvisação, também em Lisboa, até conversei com ele. Foi um experiência interessante, que me despertou pra esse assunto de memória viva da dança ou aquilo que permanece

Pois sim, aquilo que permanece, mas permanência como algo em ação, transformando-se sempre, por isso, sua continuidade, e não como algo estático, imutável, no sentido de conservação ou mesmice (permanece igual, não mudou nada, dizem por aí). Como podemos então pensar memória atrelada a essa idéia de permanência, no que diz respeito às probabilidades e improbabilidades de uma ocorrência regular?

Este ano, a Bienal Internacional de Dança do Ceará vem trazendo, mesmo que timidamente, essa proposta de atiçar a nossa memória, com propostas de remontagem e releituras, seguindo a tendência de outros eventos  brasileiros e internacionais, como o Festival Panorama de Dança, do Rio de Janeiro, que ano passado apresentou a primeira peça de Marcelo Evelin (Ai ai ai!) e seu último trabalho (Matadouro); e ainda, os muitos faunos que tem sido dançado por muitas companhias e criadores, inclusive nesse mesmo festival, com uma releitura de Raimond Rouge, ex-dramaturgo da Pina Bausch.

Silvia Moura em A cadeirinha e Eu
Aqui teremos Fauller (Cia Dita) e uma releitura da obra A cadeirinha e Eu, de Silvia Moura (CEM), que ano passado estreou na Bienal cearense e Giratório do Sesc o solo L'après Midi D'un Fauller, livremente inspirado no titulo da obra de Nijinski. Talvez ai haja uma oportunidade para os criadores cearenses começarem a se debruçar sobre as obras e mergulhar nesse universo desafiante das remontagem e releituras, que acham?

Nos Colóquios de Dança, que acontecem desde a última terça-feira, na Reitoria da UFC, e que se encerram hoje, quinta-feira (20), o assunto tem movido reflexões interessantes, como a da pesquisadora francesa Isabelle Launay, que citou o badalado dançarino Jonh Lennon da Silva e sua versão da Morte do Cisne para o programa Se ela dança, eu danço (SBT). Segundo ela, o que o jovem fez foi "uma cópia críativa, uma releitura interessante". Podemos então dizer que ele e sua versão entraram para história da dança, não?

É que nesse movimento de remontar, especificamente, há uma questão política envolvidas nos eventos de dança que têm apoio público: que gesto e que dança será escolhido para ser lembrado? E que gesto e que dança não serão escolhidos, ou serão excluídos, para serem esquecidos?

Agora nós em nossos movimentos pessoais, que danças serão lembradas, que danças serão esquecidas na potências de serem lembradas de outros modos? E, ainda, que danças serão esquecidas, de facto?

Entender que o corpo esquece transformando e lembra transcriando, como também esquece para não mais lembrar, pode ser um caminho para acabar com certos romantismos nas discussões sobre memória da (e) Dança e dos Corpos que Dançam. 
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sexta-feira, 14 de outubro de 2011

INTEMPESTIVAS # 01 / BEIJO DE LÍNGUA:
Dos nomes que lhes são próprios? *

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Relembrando....
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Tem gente que acredita: coincidência é ação divina.

De outro modo, o mesmo nome não é a mesma coisa,
e nem tudo é à toa ou quase tudo não é à toa.

Na última Bienal de Par Em Par, ano passado, os jovens cearenses Pizamiglio, Pires e Mouramateus dançam “Cavalos” pelo CirculaDança. Já a intérprete e criadora em dança Michele Moura, de Curitiba/PR, do Coletivo Couve-Flor, também dançou esse nome, mas no singular: “Cavalo”.

Para além da Bienal, Silvia Moura dançou e ainda dança “Engarrafada”, um espetáculo de dança, inclusive, no Festival Litoral Oeste, em julho de 2010, em Itapipoca. Já alguns artistas curitibanos encerraram, lá no Sul, no mesmo ano, temporada com “Engarrafados”, um espetáculo de teatro.

(som de vento forte e um leve suspiro transparece no meu rosto)


Agora várias sinapses acontecendo, você sente, corpo pensando, pensando, inspiro-me em Caio Fernando Abreu:


Hein?
O quê?
O que é que você quer dizer com isso?
Tem alguma coisa atrás, eu sinto.
Não. Não tem nada. Deixa de ser paranóico.
Não é disso que estou falando.
Você está falando do quê, então?
Eu estou falando disso que você falou agora.
Ah, sei.
Não, não foi assim.
Você também sente?
O quê?
Não me confunda. Tem alguma coisa atrás, eu sei.

(pausa na posição de cócoras)

No dicionário Aurélio, coincidência é: ato ou efeito de coincidir. / Geom. Estado de duas figuras geométricas que se superpõem. / Fig. Concurso de circunstâncias: uma feliz coincidência. / Realização simultânea de dois ou mais acontecimentos; simultaneidade, contemporaneidade.

Olha aí, eu não falei que tinha alguma coisa atrás, ainda sinto. Pois no começo tudo era claro, mas agora parece mais um bom pretexto para uma conversa ...

...sobre os nomes e as coisas ... e as danças...

*Texto de minha autoria, originalmente publicado no fanzine Beijo de Língua (Tembíú), durante a Bienal de Par Em Par 2010, com algumas alterações para esta versão on-line.
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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Danças que pedem outros dizeres críticos

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Dois trabalhos, em cartaz no Quinta Com Dança de setembro, no Teatro do Dragão do Mar,  convocam uma atenção especial. Dizeres Operários traz no nome sua questão, que é fazer ver aos nossos olhos a rotina de homens e mulheres que trabalham numa fábrica de sapatos. O outro é Negrume que, na cena, assume seu interesse pelo ambiente afrodescendente cearense, onde dançam três bailarinos que mostram no corpo uma história de enlaces culturais e raciais.

Ambos, vindos de Itapipoca, questionam-nos brutalmente, quando se conectam pelo mesmo contexto, mas se diferenciam, sem estarem apartados; quando trazem o desejo de fazer uma dança socialmente preocupada e/ou engajada para ser política; quando evidenciam potências naquilo que poderiam problematizar melhor, criticamente; quando assumem posturas subversivas e até libertadoras, mas também mostram encantamentos no lidar com os discursos das/nas minorias. E me pergunto: o que vem a ser ou pode ser uma arte/dança ativista? Que outros dizeres críticos estas danças pedem, demandam, proclamam?

Negrume
Dizeres Operários e Negrume são obras implicadas no movimento pulsante de dança, entre o social, educacional e o artístico, que a Companhia Balé Baião vem promovendo na cidade de Itapipoca, em especial, na Empresa DASS, desde 2008, com aulas de dança contemporânea e criação/mostra de espetáculos; mas, principalmente, como Associação de Artes Cênicas de Itapipoca, com ações com a comunidade local, atualmente, contemplada como Ponto de Cultura do Ceará

O primeiro é resultado do contato de operários com a estética da dança contemporânea em oficinas e mostras no ambiente de uma fábrica de calçados, a Empresa DASS, sediada em Itapipoca. A obra, que teve acompanhamento e direção de Edileusa Inácio, e co-direção de Gerson Moreno, ambos da Cia. Balé Baião, vem com um desafio outro: dar oportunidade para pessoas que não são de dança terem experiências de dança. Antes já haviam se apresentado no Teatro Sesc Senac Iracema, em Fortaleza,  com o espetáculo Maquinaria,  de Gerson Moreno, e também no Festival de Dança do Litoral Oeste, com o Tá na hora, de Edileusa Inácio.   

Não cabe aqui entrar nos méritos artísticos, uma vez que o trabalho nasce com outro movimento, que é criar horizontes positivos para estes operários dançantes: Clismênia de Sousa, Marlene de Lima, Francisco Mardônio Teixeira, Hilda Moura, José Ricardo Bezerra, Maria Edvânia Gonçalves, Renata de Sousa Matias, José Rodrigo Penha, Carlos Augusto Júnior. Temos que considerar – para além dos projetos estéticos que nutrem, mas também dominam a cena contemporânea brasileira – o poder da dança no transformar as pessoas, libertar seus corpos da normatização do dia-a-dia, dar-lhe humanidade. Mas será que conseguem, tem conseguido, temos? 


Negrume, com bailarinos da Cia. Balé Baião, apresenta uma coreografia de movimentos e gestos para falar do negro cearense mestiçado dançante ritualístico. Nele a questão do um corpo brasileiro afro-descendente evidencia-se nas referências musicais, transitando entre os sentimentos de clausura e da liberdade, enquanto herança histórica dos tempos da colonização, que ainda permanecem fortes mas com outras roupagens. Daí a importância de ver dançar Viana Júnior, Gidalto Paixão e Pergentino Davi, sendo este último um ex-operário da fábrica de sapatos onde foram ministras oficinas que resultaram no primeiro trabalho. 

Negrume
Quando os três dançam, ora juntos, ora em solos, somos contagiados por corpos mestiçados de uma cultura dinâmica. Mas para isso, precisamos nos desapegar dos determinismos de origem e de raça, a que tipo de negro eles são, mesmo que o espetáculo venha com essa proposta de afirmar uma linhagem afrobrasileiracearense. O que eles representam ou podem representar é uma fronteira borrada, do viver o movimento como algo que está lá, incorporado, embodied. 


Cabe-nos refletir bastante, criticamente: como mudar as realidades se ainda há uma tendência nossa e da maioria das pessoas em utilizar as mesmas estratégias dos que nos oprimem e subjugam? 


Como contraponto, entusiasma-me ver criadores de dança interessados em temas políticos ou que mexem, de algum modo, com ambientes tabus, quase intocáveis. A dança, por acontece no e pelo corpo, já traz em si o caráter político, daí o desafio. Na conversa com os operários, ao final do terceiro dia da temporada, senti que muita coisa tem sido feita, que muita coisa tem acontecido lá em Itapipoca, mas ainda há muita coisa pra mudar, não só no ambiente da dança do Ceará. 


Tem a ver com os preconceitos com quem faz dança, ideias de dança ainda pouco elaboradas ou muito presas a concepções disciplinares do corpo, um olhar sexista para quem faz dança, certa glamorização do estar em palco, um viés apenas terapêutico no lidar com a dança. Tem a ver também com a forca da dança de aproximar as pessoas, de criar outros contextos de corpo, de fazer as pessoas se sentirem humanas e felizes, de podem gritar para o mundo "eu sou um corpo!!!!". São constatações e contradições para ginasticarmos diariamente no sentido de construir outros sensos comuns, outros entendimentos do que é ser dança e com a dança. 


Pois uma lição podemos aprender. A dança não vai mudar o mundo, nem qualquer outra arte, mas pode sim desestabilizar alguma coisa para avançarmos, humanamente.
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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Como dançar uma dramaturgia modal?
(Por Elano Chaves)

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No espetáculo Sim: Não: Talvez, do Núcleo de Doc-Dança da Artelaria Produções, apresentado no segundo trimestre de 2011, na capital cearense, o que fica mais forte é a mistura em vários sentidos: de ambientes domésticos com cena, do público com dançarinos, do texto falado que se repete, resignifica e varia, nas idas e vindas do amor, e como lidamos com isso.

“Era uma vez, outra vez a paixão”. Essa que não temos controle, que acontece, “pois tudo no mundo acontece”, e você escolhe vivê-la, fazendo receitas entre o casal, ou para você mesmo quando ela passa. Mas ela volta, e você se entrega à outra perda, “pelo sim, pelo não, pelo talvez”, pelas possibilidades. Possibilidades entre os comparti(lha)mentos.

Ambientes montáveis, assim como no amor.

Um ambiente de casa. Mostrando cômodos que o público pode percorrer, público esse que quase se confunde com o ambiente tão convidativo gerado. Dá até vontade de entrar na cena, senão fosse pelo estado corporal distinto entre quem dança e quem só assiste.

Há uma aleatoriedade, um acaso muito forte no que é narrado, pelos ires e vires da paixão, mas que se torna diferente nas ações, apesar de ainda haver essa estado aleatório pelas pequenas improvisações dentro das partituras. Um acaso na cena e a presença do público que pode vir a estar em algum local não previsto.

Como diz Paulo José, diretor e um dos bailarinos, “a vulnerabilidade não é algo que trabalhamos aqui, mas ela está presente com certeza, tanto incidentalmente quanto acidentalmente”. Ele completa. “É algo que vamos lidando na hora, não o incluímos, mas também não ignoramos, deixamos a vontade mesmo, pois logo se torna visível que ele pode impedir a execução de alguma cena”. Isso vale tanto para quem está dentro e pra quem está fora da cena.

O trabalho mostra uma bela composição de encaixes. Isso é válido tanto pelo cenário que é deslocado, quanto pela variação na iluminação, as cores no figurino, as falas e mudanças de cena, os ambientes de cada um que dança, os (des)amores, as receitas...

Essa dramaturgia modal, trazida pelo criador do texto Ricardo Guilherme, se configura em repetir as frases moldando-as, trazendo uma parte do texto, repetindo o mesmo pedaço e adicionando mais texto, contando mais um pouco da história, depois utilizar o mesmo texto em outro momento, dando a mesma frase outros significados e percepções. 

Nessa obra digo que o texto é bem resolvido, vemos isso na forma que se utilizam dele variando a qualidade, adaptando os sentimentos ditos em ações pontuais que se repetem, como se dá o texto no corpo e na própria voz.

Abismos. Nos olhares.

Vejo cada um como um (in)cômodo da casa, como uma janela, um armário, um vídeo, um abajur, um local que pode ser visitado. Mas não se pode ver tudo, assim como no amor. Há uma grande maleabilidade, algo de permeável no grupo, assim como no amor, pois assistindo essa temporada certas especificidades aconteceram, como um dos integrantes que tinha apresentação e outro que se machucou. Como é resolvido incluindo outro ser dançante ou adaptando cada cena.

Eles cantam, eles filmam, eles projetam, eles mudam, eles ascendem, e depois apagam, eles variam, eles repetem, eles fazem, e depois vão embora, e eles voltam, para então dizer que “tudo isso era a grande desculpa pra estar junto”. Assim como no amor.

“E agora, o que fazer com esses restos?” 


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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Uns dias e horas com Ma vie * (por Eveline Nogueira)

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Falar sobre uma obra certamente não constitui tarefa fácil e, até então, só fizera tal ação em meus diários pessoais, registros que costumo fazer sempre que sinto necessidade de colocar em palavras algumas sensações suscitadas enquanto espectadora. Esta tarefa de exercício de crítica mais elaborada, porém, configura-se num desafio interessante ao qual me lanço. Voltemos, então, o tempo em alguns dias...

09 de junho de 2011, quinta-feira, 23h

Acabo de assistir o “Quinta com Dança” do mês de junho, no Teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.  Partilho impressões sobre Ma vie, da artista Aspásia Mariana, ato II do espetáculo; partilhar sobre meu ato de fruição, de contemplação da realidade sensível da obra.

A obra nasce diante da plateia e necessita dela para existir. Pareceu-me importante o olhar do espectador para que as imagens geradas ganhassem significações. Ela dança, despretensiosamente e deixa em aberto conexões ainda a serem estabelecidas. São imagens que fazem dialogar corpo e tecnologia, através da iluminação cênica, teatro e dança.
Foto: Alex Hermes.
Voltemos um pouco mais, quando Ma vie inicia.

São 20 horas e 27 minutos. A artista entra de figurino em sua maior parte na cor branca, com meias rosa, cílios coloridos, batom e esmalte fluorescente, colar preto. Pede desculpas por ter mentido quando disse que é apenas um solo, que dançaria só. Mas diz também que não é um duo. Aspásia avisa ainda: existia uma mulher, a Loïe Fuller, que gostava de luzes, dança e de vestidos longos, mas também não é sobre ela que a dança trata. Agora eu compreendo, é uma dança dançada por todos nós ali presentes.

Aspásia volta e nos avisa que tudo o que ela acabou de dizer pode ter sido uma mentira. Outra inquietação me irrompe: qual o grau de ficção e de realidade das danças cênicas? Hoje se discute tanto sobre a relação da arte contemporânea com a vida, que tudo parece misturado, verdade, vida, ficção, tudo co-relacionado. A dramaturgia da vida dançada e a abstração das possíveis mentiras. A obra foi inventada a partir do que é real, das vivências da intérprete ou a própria realidade dela é criada?

Recordo-me nesse instante do poeta Manoel de Barros, que adverte, assim como Aspásia: “Tudo o que não invento é falso”. O espectador atento já não segue do mesmo modo que chegou. Geralmente não somos acostumados com avisos desse tipo, que desconcertam certezas prévias. Ela gira a caixinha de música, uma bailarina dança na caixinha e a música toma o espaço, move-se com movimentos um pouco engraçados, com uma saia que parece ser de uma bailarina, mas seus movimentos não são como os de uma bailarina presa ao rigor técnico, ela se assemelha a uma bailarina “de férias” daquela técnica, livre, solta, que se diverte.

Foto: Alex Hermes.
Indago-me se Aspásia e Loïe seriam consideradas bailarinas pela plateia ali presente.  Divago por um instante, mas logo olho para o palco todo e percebo luzes (vários focos), lustres com luzes que pendem do teto. Uma voz no som avisa: “1890, uma luz verde foi pedida”. Nesse e em outros tantos momentos o que é narrado no som parece ratificar o que é dançado. Não tive a sensação de legenda, como uma explicação, ao contrário, as sentenças parecem apenas afirmar de outro modo o que o corpo tenta nos dizer em conversas com as luzes.

Enquanto no som se fala em ondulações, ela dança e gira sob um foco de luz, fica tonta, desequilibra várias vezes. Imagens interessantes se formam diante dos olhos dos espectadores. Figuras disformes, o corpo parece tomar outros contornos. Ela pega todos os lenços nas mãos e ocupa o palco todo, de foco em foco até as luzes que saem do teto.

Nesse instante os cílios, unhas, a boca, a roupa, os panos brilham no escuro. Um estalo se instaura em minha percepção. Ela, bailarina Aspásia, não é mais o foco, o corpo mulher some para as luzes dançarem. Acredito ser essa uma das perguntas centrais do espetáculo, questionar o que é possível emergir do encontro do corpo com as luzes, com a tecnologia. No caso específico, do corpo Loïe reverberando no corpo Aspásia, nas luzes de 1890 e de 2011, e o que acontece nesse entremeio.

Aspásia parece se divertir, enquanto as cores serpenteiam no ar. Vejo muitas imagens se formando. Borboletas, vagalumes, espirais, círculos. São formas abertas infinitas que dançam à minha frente, as quais cada espectador fecha. Então, é anunciado: “cada intérprete terá a sua dança. Nada será idêntico”, o que corrobora minha ideia de que ela quer tratar das luzes e do corpo como dança.

foto: Alex Hermes.
A bailarina da caixinha, ponto de partida de tudo, parece perder terreno para a fertilidade das luzes e das imagens provocadas no encontro com o corpo movente ou parado.  Não é tarefa fácil provocar esse tipo de pergunta para uma plateia que ainda hoje possui formatos fechados do que considera dança. Inclusive, em alguns momentos, para fugir dos estereótipos de dança, a intérprete-criadora, em minha opinião, recai na construção de um corpo teatralizado, remetendo-me a uma leve insanidade, típica dos personagens encenados pelo ator Johnny Depp. De novo, ficção de realidade.

Com isso, questiono-me se é necessário esse corpo teatralizado para fugir do que é considerado dança e estar na ambiência do encontro das luzes com o corpo. Não entendo essa estratégia como geradora de potência, ou melhor, não entendo como a melhor estratégia. A própria composição da cena, das cores, das luzes, dos véus e do corpo, toda essa nova dança, já me leva a novos lugares, aponta-me possibilidades de percepção de dança fora do corpo normalizado como dançante. Aspásia parece poder muito mais do que apresenta, sendo o Ma Vie  uma espécie de trailer do diálogo do corpo com as luzes.

Olho no relógio, são 20 horas e 37 minutos. Foram apenas dez minutos de cena. Quando o espectador é tomado por esse turbilhão de sensações, tudo acaba. As pessoas ficam ainda sentadas, esperando mais, sem ter certeza de que terminou mesmo.

Eu fui uma delas.

* Texto produzido no módulo de crítica de dança, ministrado por Joubert Arrais, para a 3ª. turma do Curso Técnico em Dança ((IACC/SECULT/SENAC).  
** Eveline Nogueira é integrante do Grupo La Calle, que utiliza o diálogo da dança, teatro, música e técnica circense. É aluna do Curso Técnico em Dança – IACC/SECULT/SENAC, mestre em Educação Brasileira, graduada em Psicologia, com formação em arte-terapia.
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