quinta-feira, 14 de julho de 2011

Pedras d'Água 2011: Largo da Severa

<>
IN, de Valentina Parravicini, foi dançado no Largo da Severa, no bairro da Mouraria, pontualmente às duas horas da tarde, durante o Festival Urbano Pedras d'Água 2011, que aconteceu em Lisboa, nestes meados do mês de julho. Estive lá com ela a dançar em dois desses dias, dois momentos onde a escrita criou um fluxo de uma redundância permeante.
Fotos: Joubert Arrais.
MOMENTO 1

Janela fechada em estado de dança. Janela a abrir sem ainda estar aberta. Fisicamente, o dentro ainda é dentro, mas já carrega um desejo de ser fora. Nós cá fora querendo ser lá dentro, já sendo. Lá, cá, dentro, fora, à espera de ambos. Documentar como sentir o fluxo dentro-fora, fora-dentro, entre. Onde está Valentina? Está lá, ora pois. Aos poucos a janela materializa um abrir-se, pés que são mãos a abrir frestas, dentro que escapa e passa a ser fora, já era, agora o é mais um bocado. Valentina está a fazer ginástica?, perguntou uma senhora. Ai Sofia disse que não, não será ginástica, era dança contemporânea, com um leve sorriso. In quer dizer dentro ou adentrar. Corpo a sair aos poucos, pés, pernas, costas, coluna vertebral, braços nos apoios lateriais, pés também, o entre a ser vivido no In, entre-in. Corpo que não é só parte, o entre está fora dentro, e nem dentro nem fora, isso exige esforço, o interstício exige esforço para ser reconhecido. Vestido verde de costas nuas e a cabeça é que sai por ultimo, na verdade, cabelos como fios que evidenciam a gravidade, o querer ir ao chão, querendo ir ao céu, inversão, mundo visto investido dá questão.

MOMENTO 2

À janela está Valentina. Entre a janela. Nos entres do entre a janela. Pés anunciam um corpo todo porvir. Janela fechada a abrir-se para quem está cá fora. O entre é nem dentro nem fora, sendo dentro e fora. Estamos cá fora e não vemos o que, de facto, está lá dentro. Supomos. Suponho.

De repente, pés viram mãos e abrem, fisicamente, a janela. Um corpo todo a anunciar-se sem ainda ser corpo todo para quem está cá fora. Uma delicadeza forte cria uma presença física permeada de linhas poéticas. Estar à janela, nós também. Estar à janela à espera é libertação, é ócio, é percurso, é metáfora.


Janela como metáfora do olhar, ver, enxergar. Janela como imagem de um portal de acesso, força que atravessa a estrutura quadrada e concreta de um prédio com outras tantas janelas e também portas. Várias janelas e algumas portas, varandas com roupas estendidas a secar num sol de rachar num verão lisboeta. Janela de madeira e vidro é metáfora do que se guarda, e guardamos, no INterior de cada um, e que, por vezes, escapa, sai um pouquinho, fagulhas.

O corpo ao sair projeta-se para um fora-cima, busca, de algum modo, a vertical, mas fica na diagonal, um perna vai enquanto a outra apóia-se. É trabalho de coordenação e cooperação, a mão direita precisa da mão esquerda, mas cada um tem uma especialidade, ora um é a força e a outra o suporte, ora o contrario, e muito revezamentos dessas partes do corpo que são corpo todo, todo o corpo. O que se vê, o que se consegue ver, é só indicio de um mundo de muitos conhecimentos.

As pernas voltam para dentro e o dorso agora se faz ver, tatear. Valentina cria deslocamentos físicos no entre a janela, forjando um movimento poético, por já o é, pelas intensidades, pelas lentidões, pela feminilidade. Estar IN é difícil, IN como entre-dentro, IN como entre-fora. Contorce-se, ginastica-se, há respiros, muitos.

O corpo não se dá como um todo, mas se dá em partes, vejo, sinto, vemos, sentimos, um todo em movimento, daí a forca das partes, ou seja, a força da delicadeza dos pés a abrir a janela, vai das mãos a um tatear-ver, o entre e as possibilidade de não ser, e ser. Isso é IN é corpo em interstício, materializado em movimentos de descobertas no familiar e estranho, ao mesmo tempo. Descoberta de possibilidades do corpo se adaptar no entre-estranho-familiar.

O corpo agora se faz ver com a cabeça e os cabelos a pendurar-se, escorrem janela abaixo, um deslizar pela beira da janela, que já não é mais só um quadrado de concreto que fura um bloco maior de concreto-prédio. Vemos e sentimos o estar em redor, o entorno, o que está às voltas por ali.

Quem sai de uma janela foge? Quem entra por uma janela é benvindo?


Talvez resida ai o diferencia a porta da janela, talvez. Sorrateios de um corpo a percorrer um entre. A janela tem assim, uma forca outra, percebi. Algo entre a legalidade e ilegalidade, a libertação e a prisão, a pessoa interior e mundo exterior. Veio a imagem de uma janela fechada para sempre, carregando na sua existência o poder de ser aberta mas sem ser. Está lá, a espera de se abrir, ser aberta, mas não.

Quantas janelas temos em nós prontas para serem abertas e não as abrirmos como medo, receio sei lá, algum sentimento relacionado as iminências.
<>

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Pedras d'Água 2011: Chafariz do Benformoso

<>

Uso de um espaço público para uma instalação artística, entre os bairros da Mouraria e do Intendente, por onde passam muitas pessoas diariamente. Foi a proposta da instalação BAFATÁ, PORBANDAR, INHACA, DHAKA, CHAFARIZ DO BENFORMOSO, de Ana Estevens e Carolina Höfs no chafariz da rua Benformoso.
Nas paredes do chafariz e também no chão, e em outras paredes do entorno, foram colados retalhos de pano de estampas mestiças e cores puras, costurados em papelotes como se fossem azulejos.

Papel-papelote-pano-estampas-azulejos-parede-chafariz-escada.

Senti as estampas em estado de deslocamento, visto que antes da abertura para o público, no processo, estavam mais juntas uma das outras.

As estampas lembram-se mosaicos, mas também África e Índia. No Brasil, chamamos o pano estampado com flores de chita (flores pequenas) e chitão (flores grandes), que parece ter uma relação com a cultura portuguesa.

Gosto de ver estampas com elementos diferentes no mesmo plano. Dá-me uma confusão boa na cabeça, desestabiliza minha percepção, principalmente quando estão juntas, muitas delas, ora parecidas um pouco, ora bem diferentes e destoantes. Diferentes figuras misturadas sem o dito fazer sentido de imediato, um aparente caos.

foto: Joubert Arrais.
Na instalação, existem estampas-irmãs, que guardam em si parecenças, mas, mesmo assim, são como toda a gente, diferentes. Partilham semelhanças e, nesse movimento hibrido de mestiçagens, também são distintas e, ao estarem juntas, realçam-se as singularidades de cada uma.

Tem também estampas que não são tão irmãs assim, evidenciam outras estéticas e denunciam outras origens e procedências, são, podemos dizer, parentes em algum nível, primas próximas e até distantes, pois há indícios de algum parentesco. Há também aquelas que são cores puras a criar vãos de possibilidades de mistura, mestiçagem e hibridez, ou já se misturaram, mestiçaram e hibridizaram tanto que passaram a existir de forma homogênea.

As misturas acontecem nas estampas e cores puras vistas como um panorama de gentes, pessoas, culturas, modos de vida, tentativas de sobrevivência, resistência, insistência, confronto, encontro, continuidades.

A ideia de pureza é perigosa e complicada, pensemos nela como algo que resguarda a potencia de se misturar ou do já misturado, visto que, na instalação, não estão apartadas, mas juntas em espaços distintos e distâncias aproximadas. 

A instalação faz-me sentir a força do "pensamento mestiço", me faz questionar o status multicultural, que delimita o diferente pelo diferente, e não pela sua capacidade de se diferenciar, pensando em perspectiva com a dinâmica da miscigenação cultural (entre nações e pátrias) e hibridismo cultural (conterrâneos e fronteiras borradas).

Foto: Joubert Arrais.
As estampas azulejo, ou azulejos-estampas, vão ao chão muitas vezes por conta do vento que passa ou da cola que não faz aderir tanto. Surge ai um aspecto que conta a favor da fruição com a obra: DESLOCAMENTO. O vento as joga no chão e sempre tem alguém que vai lá e pega e coloca no mesmo local/sitio. Algumas caem em lugares sem acesso e assim passam a pertencer aquele lugar.

Deslocamento porque, de facto, aconteceu no seu entorno, ou seja, algo no chafariz e uma camada outra a percorrer o que estava a sua volta, do chão a parede, intencionalmente colada ou sob a ação do vento e da não-aderência.

Questiono-me: o que esse acontecimento interfere na leitura da obra? Como esse acontecimento, enquanto acao física de colocar a estampa no mesmo local, incorpora-se à obra ou mesmo é incorporada na proposta por quem a concebeu?

Uma criança passou e perguntou a Carol: isto é o que? E Carol respondeu: um lugar feito para as mulheres que aqui passam todos os dias. Boa resposta.

Enquanto estava lá, uma conversa sobre ocupação artística de espaços públicos surgiu entre eu, Miguel Pereira, Marta Traquino e Paulo Raposo, sob o aspecto da burocracia em contraponto com a forca política das intervenções artísticas urbanas.

Marta enfatizou dos interesses mercadológicos (marketing) que se aproveitam dessas ações para divulgação etc. Paulo comentou sobre um evento de um grupo espanhol que parte de ações ilegais pra questionar o estatuto do espaço publico. Miguel lembrou uma ação que foi impedida em Lisboa, que era andar nu de bicicleta na cidade, muitas pessoas.

Eu disse que tem sido difícil trabalhar com a pedra em praças de Fortaleza, pela burocracia ou vigilância da policia. Se digo que é artístico, tem que ter autorização, se digo outra coisa, sou tido como louco ou sem noção e tenho que parar o que estou a fazer. 
foto: Joubert Arrais.
<>