quinta-feira, 20 de agosto de 2009

No nordeste (ainda) é assim?



Pensar a dança no Nordeste brasileiro não é tarefa fácil. Exige ousadia diante de um contexto tão diverso e que tanto (nos) instiga. Artisticamente, requer rigor conceitual se, de fato, houver um desejo que (nos) questione. Pena que um olhar cearense para esta realidade, presente no espetáculo No Nordeste é assim, da Cia. de Dança Janne Ruth, em cartaz no Quinta com Dança deste mês, pouco contribui para a construção de outro senso comum sobre nossa região. Reforça a idéia do retirante cordial que “vence” na cidade grande, por aqui e País afora. O que evidencia também o descuido curatorial do Centro Dragão do Mar com o projeto de difusão em dança mais representativo da recente história da dança no Ceará.

Tem a ver com uma afirmação ainda pouco compreendida: um objeto estético não é, necessariamente, algo de valor artístico. Definir o que é arte e, especificamente, o que é dança necessita de parâmetros que dialoguem com o mundo que é (im)posto para nós, diariamente. A arte tem que gerar algum deslocamento de ideias nos discursos rotineiros e, assim, abrir outros horizontes. E a dança, buscar ações menos engessadas para ser possível desestabilizar, nem que seja o mínimo, a verdade universal do passinho-aqui-passinho-acolá .

Por isso, dizer que, no palco, No Nordeste é assim enfatiza um tratamento estético mais comprometido com a diversão. Tal impressão não invalida a montagem. O apuro técnico parece ser quase inegável. Roupas, figurino, iluminação, videocenografia, trilha sonora, enfim, todo um conjunto simbólico que oscila entre a tonalidade terra e o colorido da chita, o corpo sofrido e sorriso estridente. Esforço para o prazer contemplativo do público, condizente com o próprio slogan de divulgação, que diz: “Venha assistir um espetáculo fantástico que já passou por uma turnê norte-nordeste, sul-sudeste e interior do estado do Ceará e foi aplaudido por mais de 15 mil pessoas”.

O que está em questão, no entanto, é de que Nordeste fala o trabalho desta companhia cearense de dança? Ou melhor, de que região este espetáculo omite-se em falar? Como desestabilizar algo já tão categorizado como a dança nordestina dentro de outra tão forte quanto, que é a dança brasileira? Como se deslocar para outras vias políticas de ação quando há uma falsa nordestinidade forjada pelos discursos turísticos marqueteiros que ainda seduzem muitos criadores de dança? Que exercício autocrítico (nos) é necessário (e suficiente) para minar um lugar comum folclorístico sobre nossa região que tanto impera?

Tudo isso também coloca em xeque os objetivos de projeto Quinta com Dança, em atuação desde 2000. Trata-se, em gênese e percurso, de um espaço destinado a trabalhos autorais e experimentais de dança contemporânea, e, não, às mostras escolares empenhadas no bom desempenho dos alunos para averiguação e apreciação de pais e familiares. Logo, projeto e espetáculo estão descontextualizados em relação a seus propósitos. Isso confunde o público cativo – que espera ver obras problematizadoras de questões contemporâneas – e também os artistas – que acreditam estar numa situação artística adequada, uma vez que foram selecionados para estar ali.

Eis aí um esforço emergencial. Contrariando os adeptos da incansável identidade meramente regionalista, como também os que acreditam que a dança não merece alguma atenção curatorial, há, sim, uma contemporaneidade pulsante e resistente nos contextos e obras artísticos – cúmplices e, ao mesmo tempo, distintos – que engendram nossa região. Só não vê quem não pode? Difícil. Só não vê quem não quer, mesmo!

* Crítica publicada originalmente no Caderno Vida & Arte, do Jornal O POVO (CE), em 20 de agosto de 2009. Disponível em http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/902835.html .

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Liturgia para uma dança-arte



Uma dança performativa, ou seja, uma fala de muitas vozes que se organiza pelo exercício litúrgico. É o que parece ser o espetáculo Sistemas ... Nada a declarar ... Somos muitos, do Grupo N Infinito, que encerra temporada, hoje, às 20 horas, pelo Projeto Quinta com Dança de julho, no Centro Dragão do Mar, e que tem apoio da Funarte, pelo edital Klauss Vianna 2008.

O novo formato da obra, agora com apenas dois bailarinos, Carlos Antonio e João Mourão, evidencia o caráter ritualístico, menos no sentido religioso e mais no anseio de um movimento de corpos que pretende ser dança e muito mais que dança. Extrapola o cênico quando se configura como um ato artístico mobilizado por muitas informações, algumas delas já maturadas, outras ainda em processo. Como também mostra o esforço e a importância da continuidade a quem se atreve a pesquisar dança, artisticamente.

A palavra liturgia pode parecer pesada demais. Acredito nesse risco. Porém, ajusta-se bem a este mais recente trabalho do grupo N Infinito. O termo está vinculado ao religioso (não a religião, que é dogma) e, indo mais fundo, à rotina do que vem a ser um culto religioso. Saudação, fé, oferendas, consagração, rito, comunhão, oração e bênção final. Tudo isso e mais um pouco. Diz muito do bailarino-coreógrafo Carlos Antonio, nome forte no contexto cearense de dança contemporânea. E diz mais das pretensões e possibilidades de atuação artística da referida companhia.

Na montagem anterior, nomeada de Nada a declarar, formada por quatro bailarinos, havia que um tipo de ansiedade em colocar tudo no palco, o que indicava um muito a declarar. Da potencia política que traz no nome, resguardou-se ao estritamente cênico, talvez meramente espetacular, ou então, um estético não-artístico, em termos de sensorialização (sensibilização dos sentidos humanos).

Neste novo momento, o duo sinaliza para o tom certo no trabalho, quero dizer, uma coesão que o anterior não tinha tanto, e ainda uma coerência com o discurso que anuncia. Isso no palco e, principalmente, no corpo, configurando como ao “borrado” e “ambíguo”. Os dois dançam ora junto, ora juntos. Demonstram ações individualmente. Por vezes, há a impressão de um espelhamento de gerações, um sendo a continuidade do outro, o outro sendo o porvir daquele um primeiro, ambos se comperando. N’outros, senti uma tendência à competição evolutiva, como espécies que se transformam no confronto quando a cooperação tende a uma extrema estabilização. Foi nessa impressão que a visão sistêmica que anunciam no titulo da obra pareceu mais coerente e que me fez conectar com a dança.

Ou seja, corpo, cultura e ambiente, coexistentes em suas especificidades. Três palavras que dizem muito, que podem dizer muito, quando tratadas com o rigor e ousadia conceituais que merecem, que merecemos.