segunda-feira, 30 de março de 2009
Ação crítica de apoio à dança de Teresina (PI)
Abaixo, dois textos:
Primeiro, "Carta aberta à dança brasileira", escrita pelo coreógrafo Marcelo Evelin, sobre a atual situação do Núcleo e Centro de Criação do Dirceu, que teve suas atividades suspensas por uma ação irresponsável da Prefeitura de Teresina.
Logo depois, carta-resposta de apoio escrita por mim, endereçada ao Sr. Cineas Santos, advogado, poeta e professor de português que assumiu a presidência da Fundação Municipal de Cultura de Teresina, empossado pelo prefeito desta capital, Dr. Silvio Mendes, no exercício de seu segundo mandato como prefeito desta capital.
CARTA ABERTA À DANÇA BRASILEIRA
Caros amigos(as) e colegas da dança, Venho fazer chegar até vocês à situação atual do Núcleo e Centro de Criação do Dirceu. Essa plataforma foi implantada em janeiro de 2006 no Teatro João Paulo II, casa da Prefeitura de Teresina através da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, localizada no bairro do grande Dirceu, periferia da cidade de Teresina.
O projeto desde então contava com a subvenção do poder público municipal e vinha servindo como base para a pesquisa e o desenvolvimento das artes performáticas contemporâneas, iniciativa inédita e de grande abrangência nesta cidade. Abriga uma instância de formação para jovens artistas, residências com profissionais locais, nacionais e internacionais, palestras, debates, grupos de estudo, espetáculos de arte contemporânea e outras atividades artísticas sob minha direção.
Fui convidado para assumir esta função e voltei ao Brasil depois de duas décadas vivendo e trabalhando na Europa, exclusivamente para me dedicar ao trabalho junto à comunidade do Dirceu e a cidade de Teresina. Recentemente, em janeiro de 2009, o Sr. Cineas Santos, advogado, poeta e professor de português, assumiu a presidência da Fundação Municipal de Cultura, empossado pelo prefeito de Teresina, Dr. Silvio Mendes, no exercício de seu segundo mandato como prefeito desta capital.
Desde que assumiu a direção desta Fundação, responsável pelo gerenciamento dos órgãos municipais de cultura, esse gestor tem se mostrado absolutamente desinteressado e contrário às atividades desenvolvidas por nós. Coloca-se de uma forma irônica e arrogante, com pronunciamentos autoritários, desprezando uma arte que se faz com interesse em um diálogo entre artistas e instituições de outros estados e países, fato que já foi divulgado por ele como “estrangeirismo” e de nenhuma importância para a cultura local.
Iniciou-se então do momento de sua posse, uma guerra fria entre o presidente e os artistas do núcleo, que na tentativa de estabelecer um diálogo e com disponibilidade para adaptar-se às novas direções da fundação, foram deixados de lado e tratados como aproveitadores por estarem ocupando um prédio público, acusados ainda de ilegalidade e incorreção perante a Prefeitura de Teresina.
O presidente não esconde sua insatisfação com o trabalho que vem sendo produzido por nós e resolveu suspender a programação da casa e interromper as atividades do Núcleo do Dirceu - pedindo aos artistas que se retirassem do teatro - at que a negociação fosse concluída. Os artistas não recebem seus salários desde dezembro e eu como diretor desde janeiro, embora tenha tomado posse da casa no início do ano.
Muitos são os motivos para que a nossa decisão em resistir e continuar ocupando esse espaço que é legítimo e necessário tenham se esgotado. Na última sexta feira, eu, os 2 produtores, o diretor musical, e os 16 artistas do núcleo de criação pedimos demissão de suas funções se desligando completamente da prefeitura.
Consideramos essa decisão como um outro tipo de resistência, uma resistência que confronta atitudes ditatoriais, xenofóbicas e manipuladoras em nome de uma ignorância que continua a ameaçar tentativas de desenvolvimento nesse longínquo e carente rincão.
Acompanhe e deixe a sua intenção de repúdio postando no blog do núcleo ( http://www.nucleododirceu.com/ ) ou enviando email para: Silvio@teresina.pi.gov.br cristianeventura.pmt@gmail.com Fmcmcgabinete@hotmail.com.
Obrigado e um abraço.
Marcelo Evelin
MINHA CARTA-RESPOSTA DE APOIO
Boa tarde, Sr. Cineas Santos
Meu nome é Joubert Arrais, sou jornalista, crítico e pesquisador de dança, e artista independente, com atuação majoritária em Fortaleza (CE). Fiz mestrado em dança pelo PPGDanca/UFBA, em Salvador (BA) sobre crítica de dança no contexto da capital cearense. O que me possibilitou também ampliar meu horizonte de idéias e reflexões sobre a dança feita no Nordeste, convergindo para um projeto contemplado pelo Edital de Produção Crítica em Artes / Dança 2008-09, da Funarte/MinC, intitulado "Coreografias Nordestinas: algumas escritas estéticas e críticas sobre a contemporaneidade de uma produção artística de dança no Nordeste" e culminará numa publicação.
Neste projeto, Teresina (PI) foi inserida, justamente pela importância do trabalho do Núcleo e Centro de Criação do Dirceu, sob a coordenação do coreógrafo Marcelo Evelin. Parto de obras de quatro capitais do Nordeste, mas privilegio o contexto em que tais obras foram criadas, a representatividade de tais obras, entre outros aspectos, o que denota a relevância da produção dessas capitais para o conhecimento sobre a dança brasileira em nosso tempo (além de Teresina, escolhi Fortaleza, Recife e Salvador).
Outra informação é um texto escrito pela professora e crítica de dança Helena Katz (Mono vira marco histórico da cena), em 28 de maio de 2008, no Jornal Estado de São Paulo, que reflete sobre o trabalho do Núcleo do Dirceu e sua importância para a visibilidade / relevância da cena e experiência em dança na capital piauiense. O texto é sobre a performance-instalação "Mono", de Marcelo Evelin, como um indício de mudanças no jeito de fazer dança do coreógrafo, intimamente transformada, como ressaltou Helena, pelas atividades do Núcleo Dirceu. Sobre este, ela faz menção à relaçao deste espaço com as artes contemporâneas e afirma: "Anote esse nome porque, embora exista há somente dois anos, já é um marco na história da dança que se produz no Brasil". Vale a pena ler o texto todo (em anexo) e sentir como muitos dos preconceitos que fragilizam a dança devem-se, crucialmente, às péssimas condições de circulação e intercâmbio de informação, principalmente quando vivemos num país de dimensão continental e de uma rica diversidade cultural.
O fim das atividades do Núcleo do Dirceu, portanto, é um golpe fatal pois coloca Teresina novamente em uma situação de ostracismo, revelando a incapacidade da prefeitura de Teresina de pensar políticas públicas locais. E para o nosso país, um retrocesso, tendo em vista os muitos esforços para fortalecer um jeito de fazer dança que questiona as coisas do mundo, que não é só passinho-aqui-passinho-acolá e que, como prioridade, vem refletindo sobre a condição humana na contemporaneidade.
Se informe, leia, pense a respeito. Pois não se trata de uma mera ação burocrática de "reorganizar a casa", bem recorrente nos novos mandatos. Mas será sim, isso sabemos, se já não estiver sendo, um erro histórico.
Atenciosamente,
Joubert Arrais
Fortaleza (CE)
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
Corpo em segundo plano *
Uma vez assumido o compromisso de se pesquisar artisticamente a dança, faz-se necessário ter foco, que é desenvolver hipóteses e metodologias de investigação. Tal posicionamento não é só estético, mas também político: alimenta o processo de criação, possibilita o amadurecimento do espetáculo e, principalmente, trata a dança como produção de conhecimento de altíssima complexidade sistêmica. Nesse contexto, Magno_pyrol, o corpo na loucura, solo de Graco Alves que encerra temporada hoje no Quinta com Dança deste mês, é um exemplo interessante para refletir sobre o contexto cearense da dança.
O trabalho iniciou-se como a grande zebra na seleção para o Programa Rumos Dança 2006/2007, do Itaú Cultural e, desde então, vem fazendo um percurso pouco habitual para os criadores locais de Fortaleza e interior do Estado. Teve apoio de bolsa de criação, o que lhe possibilitou alguma longevidade para sua proposta. Apresentou-se também em uma mostra nacional com artistas de outras cidades do País, igualmente selecionados como ele, e ainda em eventos de cunho psicanalítico, o que lhe deu rendeu bons contatos profissionais. No entanto, ainda está mais próximo de uma boa idéia que necessariamente de uma pesquisa artística, devido à falta de fôlego intelectual do referido programa e, possivelmente, ao encantamento da sua forma eficiente de exposição, vinda do grande poder de difusão do instituto que o promove.
Nesses mais de dois anos, o espetáculo tem momentos ricos que permaneceram. No drama da formiguinha com o pé preso na neve, Graco cria uma apatia inteligente de gestos no ato de contar a história pela lógica da repetição. A esquizofrenia, que traz a idéia de uma falta de sintonia com a realidade, está também presente na obra, mesmo bastante vinculada à representação cênica. Tal distúrbio configura-se como um elemento decisivo que amplia a força dramatúrgica da obra. Principalmente para entendermos que há sim nexos de sentido na aparente perda de contato com o mundo externo.
Porém, a montagem ainda é imprecisa no que almeja, de fato, problematizar. Nela prevalece uma abordagem terapêutica que agrada ao público, porém, é pouco vigorosa sobre o que pretende discutir, que é o corpo na loucura. Talvez por ainda se manter enraizado nas discussões de Michael Foucault, ao invés de partir desse autor para outras elaborações sobre a difícil transposição de estados físico e mental para o corpo que dança. Bom lembrar que no mundo de instabilidades em que vivemos, a loucura é mais que um sintoma: é um forte indício da nossa incapacidade em lidar com a natureza humana.
Há ainda as quedas-livres, que não chegam a ser uma releitura de um dos elementos característicos do Grupo Cena 11 (Porto Alegre - RS), companhia dirigida pelo coreógrafo Alejandro Ahmed, um dos curadores da última edição do Rumos Dança. Pelo menos não deveriam ser por conta do apuro técnico necessário na preparação corporal (quedas machucam e muito!). Ao que parece, a questão importante para Graco e que precisa ser melhor investigada artisticamente é a repetição de movimentos, condição recorrente nos pacientes com Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), como o próprio criador já evidenciou em conversas e debates pós-apresentacões. Isso daria a ênfase no corpo, mais ajustada a sua proposta.
A saber, Magno_pyrol é um dos raros privilégios para a crítica especializada, desde sua pré-estréia, em fevereiro de 2007. Motivo: a possibilidade de um acompanhamento regular da obra, justamente para que as trocas de informação aconteçam e que seja possível qualificar, de algum modo, o discurso sobre dança no Ceará e no Brasil.
Joubert Arrais é jornalista, crítico de dança, artista independente e mestre em Dança pelo PPGDanca/UFBA, com atuação em projetos autorais e colaborativos. Participe mais desse diálogo no blog www.umjovemcriticodedancabrasileiro.blogspot.com
*A versão impressa desse texto crítico foi publicado no caderno Vida & Arte, do jornal O POVO, em 26 de fevereiro de 2009. Disponível em http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/857228.html ou no virtualpaper (link “edições”), onde é possível visualizar a página impressa.
O trabalho iniciou-se como a grande zebra na seleção para o Programa Rumos Dança 2006/2007, do Itaú Cultural e, desde então, vem fazendo um percurso pouco habitual para os criadores locais de Fortaleza e interior do Estado. Teve apoio de bolsa de criação, o que lhe possibilitou alguma longevidade para sua proposta. Apresentou-se também em uma mostra nacional com artistas de outras cidades do País, igualmente selecionados como ele, e ainda em eventos de cunho psicanalítico, o que lhe deu rendeu bons contatos profissionais. No entanto, ainda está mais próximo de uma boa idéia que necessariamente de uma pesquisa artística, devido à falta de fôlego intelectual do referido programa e, possivelmente, ao encantamento da sua forma eficiente de exposição, vinda do grande poder de difusão do instituto que o promove.
Nesses mais de dois anos, o espetáculo tem momentos ricos que permaneceram. No drama da formiguinha com o pé preso na neve, Graco cria uma apatia inteligente de gestos no ato de contar a história pela lógica da repetição. A esquizofrenia, que traz a idéia de uma falta de sintonia com a realidade, está também presente na obra, mesmo bastante vinculada à representação cênica. Tal distúrbio configura-se como um elemento decisivo que amplia a força dramatúrgica da obra. Principalmente para entendermos que há sim nexos de sentido na aparente perda de contato com o mundo externo.
Porém, a montagem ainda é imprecisa no que almeja, de fato, problematizar. Nela prevalece uma abordagem terapêutica que agrada ao público, porém, é pouco vigorosa sobre o que pretende discutir, que é o corpo na loucura. Talvez por ainda se manter enraizado nas discussões de Michael Foucault, ao invés de partir desse autor para outras elaborações sobre a difícil transposição de estados físico e mental para o corpo que dança. Bom lembrar que no mundo de instabilidades em que vivemos, a loucura é mais que um sintoma: é um forte indício da nossa incapacidade em lidar com a natureza humana.
Há ainda as quedas-livres, que não chegam a ser uma releitura de um dos elementos característicos do Grupo Cena 11 (Porto Alegre - RS), companhia dirigida pelo coreógrafo Alejandro Ahmed, um dos curadores da última edição do Rumos Dança. Pelo menos não deveriam ser por conta do apuro técnico necessário na preparação corporal (quedas machucam e muito!). Ao que parece, a questão importante para Graco e que precisa ser melhor investigada artisticamente é a repetição de movimentos, condição recorrente nos pacientes com Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), como o próprio criador já evidenciou em conversas e debates pós-apresentacões. Isso daria a ênfase no corpo, mais ajustada a sua proposta.
A saber, Magno_pyrol é um dos raros privilégios para a crítica especializada, desde sua pré-estréia, em fevereiro de 2007. Motivo: a possibilidade de um acompanhamento regular da obra, justamente para que as trocas de informação aconteçam e que seja possível qualificar, de algum modo, o discurso sobre dança no Ceará e no Brasil.
Joubert Arrais é jornalista, crítico de dança, artista independente e mestre em Dança pelo PPGDanca/UFBA, com atuação em projetos autorais e colaborativos. Participe mais desse diálogo no blog www.umjovemcriticodedancabrasileiro.blogspot.com
*A versão impressa desse texto crítico foi publicado no caderno Vida & Arte, do jornal O POVO, em 26 de fevereiro de 2009. Disponível em http://www.opovo.com.br/opovo/vidaearte/857228.html ou no virtualpaper (link “edições”), onde é possível visualizar a página impressa.
SERVIÇO:
Magno_pyrol: o corpo na loucura. Espetáculo da Cia. Argumento com direção e coreografia de Graco Alves. Hoje, 26 de fevereiro, às 20 horas, no teatro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultural. Ingressos: R$ 2 (inteira) e R$ 1 (meia). Mais info: 3488. 8600.
Assinar:
Postagens (Atom)