quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Precisamos de eventos de dança que qualifiquem
as relações entre obra, artista e público

O Festival Contemporâneo de Dança, que começou no início do mês de novembro, apresentou uma programação enxuta, focada no fortalecimento das relações que já vem estabelecendo desde a primeira edição, em 2008. Na edição 2011, foram treze dias com apresentações inéditas como também a participação de artistas que figuraram nas edições anteriores, estabelecendo, assim, uma relação de continuidade tão vital para os eventos ditos festivais, mostras e bienais, pois é uma forma eficiente de acompanhar a produção de um artista e de tantos outros e, assim, fomentar a produção de conhecimento sobre tais artistas, suas obras e como elas reverberam. 

Só pude assistir os dois últimos dias, 12 e 13, nos quais, tive a oportunidade de ver o solo Quando O Sol Brilha Mais Forte a Sombra é Mais Escura, de Marcelo Gabriel, dançarino e performer mineiro que, há tempos, vem trabalhando o assunto "corpo" em suas vertentes culturais, antropofagizando relações colonizadas, eurocêntricas e totalitárias. 
Marcelo Gabriel (Belo Horizonte - MG).
Foto: Divulgação.
Mesmo causando certos incômodos propositais na interação com o público, nem sempre bem recebidos pela "vítima", Marcelo Gabriel cria uma situação, onde o corpo sujeitado dos terrorismo nazifacistas é nosso corpo contemporâneo, pois evidencia uma corporeidade esquizo e homogeneizante, quero dizer, um corpo que processa as informações do mundo de modo padronizado, engole a seco, mas, nem por isso, o corpo sai ileso.

Outro trabalho foi de uma artista espanhola Paz Rojo (Madri), Lo Que Sea Moviéndose Así, que teve a colaboração com Christian Duarte, que na quinta e sexta, apresentou Hot 100 – The Hot One Hundred Choreographers, solo também dançado na Bienal Internacional de Dança do Ceará, na programação parceira com o Festival Ponto.CE. 

Paz Rojo (Madri). Foto: Divulgação.
Partindo do que Paz diz “Lo que sea moviéndose así”, é dizer, um CORPO: […] uma traição. Vender-se ao seu inimigo. […] “Corpo” é o nome dos limites impostos. […] Este corpo é sempre o corpo dos outros. […] Um corpo que foge a sua linguagem, atrevo-me a suspeitar…", podemos pensar em trabalhos que buscam evidenciar um modo singular de se mover no espaço, que tem a ver também com um modo de organizar esse mover-se como dança. 

Neste caso, Paz nos mostra um corpo inquieto que se move para poder estar/permanecer vivo em movimento, "estar" como ação de estados, "permanecer" como continua transformação, arrisco dizer. Uma obra-processo que, na factualidade da apresentação, partilhou estabilidades testadas mas também que emergiram em tempo real. 

Tive ainda a oportunidade de assistir a palestra "Corpomídia", ministrada por Rosa Hércoles, dramaturgista e coordenadora do curso de Artes do Corpo, da PUC/SP. Foi importante acompanhar as ideias da pesquisadora, quando já tinha lido textos sobre a Teoria Corpomidia, que, desde 2002, concebida e difundida pelas pesquisadoras Helena Katz e Christine Greiner. A partir dessa teoria, embasada nos estudos recentes sobre ciências cognitivas e sobre a evolução humana, os estudos do corpo ganham outra existência, pois passam a estar livres dos dualismos que engessa as relações com o mundo.

No caso da dança, que acontece no/pelo corpo, o pensamento que emerge na relação com abordagens  não-dualistas (que não separa mente e corpo, teoria e prática, entre outras) é um pensamento que passa a questionar concepções não mais cabíveis, como a dança como arte do indizível, ou mesmo que movimento é apenas ação física visível, dentre outras contribuições.

Importante essa palestra, pois cria um ambiente crítico inserido dentro da programação, uma vez que possibilita teorizamos nossas experiências, formularmos nossas hipóteses sobre aquilo que o artista decide partilhar conosco como obra e a própria dinâmica do festival.  

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O movimento é pensar as muitas histórias da dança

Na oitava Bienal Internacional de Dança do Ceará, que teve inicio semana passada, o movimento é fazer o público pensar as muitas histórias da dança.  Nos seus quinze anos de existência, o evento cearense traz na programação obras autobiográficas ou que versam sobre a memória de quem dança.

Como é o caso do espetáculo CEDRIC ANDRIEUX, do coreógrafo francês Jerome Bel, apresentado no último sábado, na abertura da Bienal, no palco principal do Theatro José de Alencar. O título da obra é o nome do bailarino, o que já diz muito nesse nomear uma obra com seu próprio nome. 


Durante 80 minutos, o bailarino Cedric falou sobre os grandes nomes da dança internacional com quem ele trabalhou nos seus vintes anos profissionalmente, como Merce Cunningham e Trisha Brown. A dramaturgia linear e com muito texto falado causou incômodo e certa chatice nas pessoas, por ser algo ainda pouco habitual para um publico que quer ver dança. Mas isso, em certa medida, foi proposital e quem conseguiu ter calma acabou por descobrir a relevância humana desse falar de si.

Vale lembrar que, em 2007, a sexta edição da bienal cearense foi aberta com outro solo autobiográfico de Jerome Bel, com o nome da bailarina carioca ISABEL TORRES, à convite do Festival Panorama de Dança (RJ).

Outro momento emocionante foi ver Angel Vianna, um grande nome da historia da dança no Brasil, ainda atuante nos seus 83 anos de vida, sendo mais de sessenta dedicados à arte da dança e do movimento. No espetáculo QUALQUER COISA A GENTE MUDA, a bailarina e professora de dança Angel Vianna mostra um experimento de movimento com a bailarina carioca Maria Alice Poppe, emocionando a platéia lotada do Teatro do Dragão do Mar, nesta quarta-feira. 

A bailarina e professora de dança Angel Vianna (foto: Renato Mangoli).
A coreografia é de João Saldanha e seu atelier de coreografia, também coreógrafo do espetáculo NÚCLEOS, dançado no dia anterior e premiado recentemente pela Revista Bravo. Nesta obra, João Saldanha se inspira numa proposta do artista Hélio Oiticica, com o mesmo nome do espetáculo. Os quatro dançarinos apresentam solos de muito movimento e incrível interpretação, junto com uma cena trabalhada em intensidades diferentes de luz. Corpos, movimento e iluminação se revezam ao som de música popular brasileira. 

No entanto, a obra perde força cênica ao ter sido apresentada aqui em Fortaleza no formato palco italiano, deixando a platéia distante e apenas na contemplação. Quero dizer, manter o publico pouco próximo não foi uma decisão coerente quando a proposta de Helio Oiticica era enfatizar a liberdade de deslocamento do espectador e, assim, expandir a experiência sensorial, aguçar os sentidos, até mesmo para criar outro tempo de fruição estética, fazer da obra um lugar um ambiente penetrável, corporalmente.