quinta-feira, 16 de junho de 2011

Mostra evidencia criação em dança

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Para ser movimento, o corpo precisa dançar. Quando isso acontece no plural, ou seja, muitos artistas juntos partilhando a dança do outro. Mas para isso acontecer, ser possível acontecer, é extremamente importante a existência de espaços para experimentação artística, onde seja possível:

ARRISCAR IDÉIAS EM PROCESSO,
TESTAR HIPÓTESES NO CORPO E NA CENA,
DESCOBRIR OUTROS MODOS DE MOVER O CORPO,
INVENTAR PROXIMIDADES COM O PÚBLICO,
ATÉ MESMO PARA (RE)APRENDERMOS
A SER UM PÚBLICO ATIVO E PARTICIPANTE.

A Mostra Solos e Duos (este ano, com os Trios, como trocadilho), iniciativa do Centro de Experimentação em Movimento – CEM, dirigido pela bailarina e atriz Silvia Moura (na foto, em Engarrafada); e Artelaria, que tem à frente o bailarino, ator e coreógrafo Paulo José, aconteceu durante todo o mês de maio, em diversos espaços da cidade (Artelaria, Theatro José de Alencar e Teatro Universitário/UFC), mobilizando artistas e pesquisadores da capital e interior do Estado, em suas variadas e distintas maturidades.

Forjou, assim, situações onde foi possível mesmo sentir o movimento do outro e o movimento de nós próprios nesse estado criativo da/para experimentação. Foram cerca de 100 apresentações de propostas em processo (ou já consolidadas, atualizando-se no contexto da mostra), muitas delas do mesmo trabalho. Feito uma bolha, a mostra deu vazão, circunstancialmente, a desejos e vontades de dançar e estar dançando.

Tudo isso evidencia que a criação em dança tem especificidades relacionadas ao corpo e ao cênico. Carecemos de uma dinâmica outra que possibilite percebermos o corpo pensando, investigando, procurando soluções, mesmo que sejam provisórias, pois no corpo dançante, o provisório, o aparentemente passageiro, deixa marcas, escrituras, memórias, história viva.

Não dá mais pra acreditar que a dança é algo que acontece fora do corpo, pois é nele que as idéias vão sendo maturadas, sinalizando para uma produção de saberes intimamente ligados ao nosso estar no mundo como seres dançantes pensantes.

Mas a questão é que espaços existem na cidade para essa criação e experimentação (com)partilhada? Até quando serão as nossas estruturas pessoais que darão conta de uma precariedade que engessa e desmobiliza?
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quarta-feira, 25 de maio de 2011

A dança-rasga-saco com os hífens que ainda a restam da mistura que faz - Sambarroxé por Jorge Alencar

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AMANHÃ, 26 DE MAIO, ÚLTIMA APRESENTAÇÃO DO SOLO EU DANÇO SAMBARROXÉ, ÀS 20 HORAS, NO TEATRO DO CENTRO DRAGÃO DO MAR, PELO PROJETO QUINTA COM DANÇA
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Ainda na fase experimental da pesquisa, apresentei a performance "Sambarroxé - um experimento bruto" em junho de 2009 no II Encontro Interação e Conectividade, promovido pelo Grupo Dimenti (Salvador/BA), na capital baiana.
Na ocasião, o pesquisador e coreógrafo Jorge Alencar, deste grupo, escreveu um texto bem humorado, e não menos contundente, sobre o trabalho, o que considerei uma espécie de texto dramatúrgico sobre a obra, além de deixar forte a relação dança e política no corpo que dança o sambarroxé.
Segue abaixo o texto na íntegra:

A dança-rasga-saco com os hífens
que ainda a restam da mistura que faz

Mexido 1: no escuro da sala, como dentro dum saco preto de lixo, um rádio tosco toca numa inconstância esquizofrênica sons de samba, arrocha, axé. Quem é quem se até com hino nacional dá para mexer os quartos? Saco sonoro entupido de quadril. De um quadril urbano e popular com pinta de AM. Quadril que nem precisa de palco solene. Quadril de rua sem camarote. Quadril com livre acesso. Quadril de todos nós e qualquer um.

Mexido 2: ele mexe engraçado num rebolado sacana de quem quer comer todos os pratos da mesa de uma só vez. Arrocha, axé, samba. Tá tudo alí, mas nada está lá exatamente. Saco de lixo preto fashion apropriado: um shortinho sem condições, uma camiseta fim de festa, uma chuteira com as cores da nação. Para embolar o meio de campo.

Mexido 3: do vestígio. A voz sai dizendo o que deve ou deveria ser feito. A voz é o corpo mesmo que saído do radinho podre. Mídia deslocada, gasta e pertinente. O radinho é saco preto de lixo sonoro que toma corpo pelo estímulo-comando que, nessa altura, é memória-vestígio dos outros já mexidos.

Mexido 4: Lá está o corpo, fetichizado plenamente em saco preto de lixo. Tudo lá: confete, axé, moeda, samba, quadril, arrocha...rasga saco de festinha onde se disputa a tapa algum mimo. Mas qual escolher? É pegar o que der, o máximo que der e mexer. Sambarroxé - mexidão politicamente confuso e carnavalizado.

Jorge Alencar

Foto: João Meirelles_BA

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