domingo, 13 de fevereiro de 2011

O outro lado do Cisne *

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Cisne Negro quebra o estereótipo das bailarinas de balé clássico, vistas como delicadas e pueris. A realidade opressiva das competições é o outro lado desnudado pelo filme


Um trecho da música "A ciranda da bailarina", de Chico Buarque e Edu Lobo, diz assim: "Todo mundo tem um primeiro namorado / Só a bailarina que não tem / Sujo atrás da orelha / Bigode de groselha / Calcinha um pouco velha / Ela não tem". Essa imagem mitificada da menina bailarina é até engraçada e habita muitos imaginários, mas logo se mostra não tão positiva e "Cisne Negro" toca bem no tema. Polêmica, instigante e, por vezes, exagerada, a obra de Darren Aronofsky evidencia a pouco conhecida história do Lago dos Cisnes, ao mesmo tempo, mostra a rotina disciplinada de quem dança balé clássico como profissão. Mas tanto o filme como a peça estão longe da ser mera contemplação.

A busca pela perfeição é algo inerente ao ser humano, sabemos. Como também a ambiguidade da natureza humana, temos que admitir. E antes de qualquer diálogo, que fique claro que não é algo restrito ao universo da bailarina, especificamente, do balé clássico profissional. Paradoxalmente, notícias sobre alguém - homem ou mulher, menino ou menina - que foi selecionado para uma grande companhia, inclusive aqui na imprensa do nordeste brasileiro, deslumbram muitos que querem uma carreira nacional (e até internacional). Reforçam a técnica clássica como linguagem universal da dança ou pré-requisito obrigatório para dançar profissionalmente, lembrando ainda da realidade opressora dos festivais competitivos e das companhias profissionais.

Coaduno, mas pondero. O grande sucesso de "Cisne Negro" desfaz esse senso comum, mas corre um risco considerável ao sair de um extremo emblemático e ir para outro caricatural. Eis a tensão que instaura. Não tanto negativa, pois consegue realizar um envolvente filme sobre dança, caracterizado por um drama psicológico que vem atiçando as apostas para as mais cobiçadas estatuetas do Oscar - Filme, Direção e Atriz - e agradando as pessoas da dança. Até aquelas que rejeitam ou ignoram, com justa causa, o balé. Certamente um dos grandes motivos da empatia está na peça original Lago dos Cisnes, que contraria a banalidade dos contos de fadas dançados ao falar do amor sexual e mortífero de um príncipe e um cisne.

Pouco se conhece a história do Lago dos Cisnes. Tem origem numa estreia fracassada, em 1877, coreografada por Julius Reisinger, no Ballet Bolshoi, mas com montagem incompleta. O músico Tchaikovsky morreu sem acabar a partitura final. Sabe-se pouco também que uma única bailarina precisa viver/dançar pulsões femininas opostas. Nesse balé, a solista é desafiada a dançar bem tanto o doce Cisne Branco/Odete quanto o sensual Cisne Negro/Odile. A pioneira nesse papel duplo foi Pierina Legnani, em 1895, na primeira versão completa do Lago, criada por Lev Ivanov e Marius Petipa em quatro atos, em São Petersburgo, para a companhia que atualmente é conhecida como Kirov Ballet.

A contemporaneidade da dança dos cisnes está justamente nesse desafio duplo no que diz respeito à liberdade de interpretação. Aronofsky faz do lado negro do cisne o fio condutor de uma narrativa de suspense incrível, onde é crucial a figura do intérprete. O extremo rigor e a exigente disciplina dos ensaios, em contraste com a imagem etérea da bailarina, denunciam a dureza do treinamento técnico e da preparação corporal de quem decide e insiste (não por muito tempo) dançar balé no palco e fora dele. Até mesmo para Natalie Portman que, para viver a frágil e perfeccionista bailarina Nina, teve que voltar a fazer aulas, um ano antes das primeiras filmagens.

Mesmo com alguns méritos, "Cisne Negro" trata-se de um filme sobre dança. E não um filme de dança. Um detalhe importantíssimo que muda muito o modo de se relacionar com o que vemos na grande tela. A compreensão da obra fica ajustada àquilo que pretende ser: ter a dança como assunto para falar de outra coisa. O filme Merece destaque porque avança no cruzamento de linguagens, quando a história do cinema nos diz que a dança é mera desculpa para um romance meloso e/ou cenografia. As imagens de movimento tratam a dança com extrema sensibilidade, e não tanto como pano de fundo.

Na contramão, essa mesma história traz filmes relevantes e que ainda permeiam o imaginário de muita gente, como os mais conhecidos "Flashdance" (1983) e "Billy Eliot" (2000); e outros nem tanto, como "The Red Shoes" (1948), "The Turning Point" (1977) e "White Nights" (1985), estes dois últimos com o bailarino russo Mikhail Baryshnikov.

Montagens Contemporâneas

Mas dialogar com os clássicos requer rigor e ousadia. O Lago dos Cisnes é um balé de ação (diga-se, com mais ênfase na expressividade) que abre margens para outras interpretações, por conta da abertura que a dita partitura tem em sua história. Não só o diretor norte-americano tira bom proveito disso. Antes dele, coreógrafos contemporâneos da Europa já o fizeram, como o sueco Mats Ek, o britânico Matthew Bourne e o alemão Raimund Hoghe.

Na versão de Mats Ek, de 1987, mostra uma revolta masculina sobre as mulheres e se configura como uma viagem pessoal do coreógrafo para falar da relação obsessiva com a mãe, beirando a misoginia. Já a coreografia de Matthew Bourne, de 1995, é a que vemos no final do filme "Billy Elliot" e uma das mais conhecidas pela radicalidade e erotismo dos corpos, quando enfatiza a pulsão selvagem e sexual do homem, com todo o elenco composto apenas de bailarinos, para tocar abertamente na dimensão sexual na vida de Tchaikovsky.

Uma das mais recentes é de 2007, de Raimund Hoghe, também ex-dramaturgo da coreógrafa alemã Pina Bausch (falecida em 2009). A montagem questiona o ideal de beleza quando o próprio corpo de Hoghe, corcunda e rejeitado, dança com uma antiga bailarina clássica e dois jovens bailarinos. Ele esteve em novembro último no Brasil com outros clássicos revisitados, como Bolero de Ravel, de Maurice Ravel, e L´a prés midi d ´un Faune, de Vaslav Nijinsky, no evento carioca Festival Panorama de Dança 2010.

* Texto publicado originalmente no Caderno 3, do jornal Diário do Nordeste, em 13/02/2011, com o título "O outro lado do passo". Versão on-line disponível na imagem abaixo:

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Que nome nos é próprio na dança? *

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Entre conquistas e frustrações, o setor da dança no Ceará encerra o ano de 2010 com boas perspectivas. Destaque para ações no Interior do Estado


Discorrer sobre o que aconteceu no ambiente da dança do Ceará em 2010 necessita de alguns cuidados, antes de qualquer atrevimento analítico, se a intenção é criar inteligibilidade sem destruir a diversidade, ou seja, compreender nossa realidade para ser possível alguma transformação. Inspiro-me no pensamento transgressor do sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, de fazer visível o existente como desafio político para nós da Dança, de um intensificar o presente, indo contra o desperdício da experiência, e um retrair o futuro, diminuindo as expectativas.

O fato é que a dança cearense complexifica-se a cada ano. 2010 não foi diferente. Muitos comemoram o bom ano onde muita coisa aconteceu, muita mesmo. Outros tantos, porém, estão ressabiados, por exemplo, com a transição do governo do estado, no que diz respeito aos planos de ação do novo secretário de cultura, Francisco Pinheiro ("Prof. Pinheiro"). Visto que muita coisa deixou de acontecer, muita mesmo, por conta de um diálogo ineficiente com a área da dança por parte da antiga secretaria de cultura do estado, gerida, até então, pelo professor Auto Filho, desgastando, inclusive, nosso movimento político, através do Fórum de Dança do Ceará, que tanto trabalhou para informá-la sobre suas demandas.

Em âmbito nacional, temos o Plano Nacional da Dança já aprovado, dentro do Plano Nacional da Cultura, amplamente discutido pelas câmaras setoriais. Trata-se de um documento valioso que, não obrigatório para ser seguido, é, de certo, altamente recomendado para outras diretrizes, como apoio à memória e registro, e orçamento distinto para a dança nas chamadas artes cênicas.

Noutro movimento ante esse descaso público estadual, tivemos a sensível atuação de Isabel Botelho, à frente da coordenação de dança da Secultfor, com a retomada do Edital das Artes, nas categorias Manutenção de Grupo e Programa Quarta Em Movimento. O bom acompanhamento no repasse de verbas dos projetos contemplados em edições anteriores deste edital foi outro ponto positivo, ante a dificuldade de gestão financeira por parte da atual gestão da Prefeitura de Fortaleza.

No entanto, não há como desconsiderar as expectativas frustradas com as baixas de ações educativas de base, como o Projeto Dançando na Escola, amplamente divulgado na imprensa e que sofreu de inanição nas escolas municipais da Capital; e a Especialização Dança & Educação, em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC), já aprovada, mas adiada e sem previsão de início.

Contrariando uma impressão superficial de que nada aconteceu, artisticamente, no ano de 2010, podemos perceber o intenso movimento da dança em contextos cênicos de produção artística, o que nos coloca a questão cotidiana: que dança nos é própria na chamada dança cearense nordestina brasileira. E adianto, não foram poucos os acontecimentos. Tivemos dois processos de pesquisa coreográfica apresentados na Mostra Rumos Dança 2009/10, do Instituto Itaú Cultural, no mês de março, em São Paulo: o de Andréa Sales, com "Casa"; e o de Andrea Bardawil & Graça Martins, "Graça".

Destaques

Paralelo a isso, Sales estreou o vídeodança documental "A carne não é fraca", em agosto, na Vila das Artes; e Bardawil realizou o encontro presencial "Tecido Afetivo - Por uma dramaturgia do encontro", de 7 a 11 de junho, em Flecheiras, com artistas e pesquisadores do Ceará e do Rio de Janeiro. Ambos tiveram apoio da Funarte, através do Prêmio Klauss Vianna de Dança 2009, junto com "Sim, Não, Talvez", uma docdança da Artelaria Produções, dirigida pelo bailarino e ator Paulo José, com texto do dramaturgo Ricardo Guilherme, que realizou excelente temporada em dezembro último, no Alpendre.

Outro destaque foi a produção de final da segunda turma do Curso Técnico em Dança (IAAC/Senac/Secult), que reverberou local e nacionalmente, com as montagens "Ma vie", de Aspásia Mariana, e "O pensamento se faz na boca", de Luis Otávio, ambos presentes na itinerância do Circuladança, pela Bienal de Par em Par, junto com outros grupos e artistas cearenses pelas regiões do Vale do Curu, Sertão Central e Cariri. E ainda, o espetáculo "Cavalos", de Andréia Pires e Daniel Pizamiglio (em parceria com Leonardo Mouramateus), único trabalho do Ceará convidado à participar do evento carioca Panorama Festival 2010.

Somando forças aos eventos na área, a tão necessária Mostra de Solos e Duos fez-se pertinente ao mobilizar a criação experimental e a relação da dança com os diversos públicos, com articulação bailarina e coreógrafa Silvia Moura (CEM), em parceria com Artelaria Produções. E ainda, festejemos a seleção merecida da Cia Dita para o Palco Giratório 2011. Dirigida pelo bailarino e coreógrafo Fauller, a companhia é a segunda do Ceará a realizar itinerância nacional pelo projeto promovido pelo Sesc Nacional, que inicia em abril próximo. A primeira foi a Cia Vatá, dirigida por Valéria Pinheiro.

Por todo o Ceará

No interior do Estado, a expansão do ambiente da dança pode ser observada em termos de apoios e ações de continuidade. A Associação Cariri e a Alisson Amâncio Companhia de Dança foram premiados pela Funarte em vários editais, como Klauss Vianna, Apoio a Eventos, Residência Artística em Artes Cênicas (em parceira com a Ana Vitoria Companhia de Dança) e Edital das Artes da Secult-Ce, este com várias candidaturas individuais. O que pressupõe, pensemos, muito trabalho e reverberação pela região do Cariri cearense, que é vasta.

No caso de Itapipoca, continua a atuação da Cia Balé Baião pela região do Vale do Curu, com destaque para a participação no II Encontro Terceira Margem / Bienal de Par em Par, com a intervenção urbana "Lamentos e Gozos da Imperatriz de Itapipoca", e a realização da quinta edição da Mostra Performática Intenções, evento que possibilita que os artistas locais e da região troquem experiências e experimentações em dança. Também na região do norte do estado, especificamente, o litoral oeste, Paracuru afirma-se com a Escola de Dança de Paracuru, em especial, com o início das atividades como parte do Pontão de Cultura Terceira Margem, junto com a Cia. Vidança e a Edisca, em parceria com a bienal cearense e patrocínio da Petrobrás, através do MinC.

Nesse movimento, no qual se engendra também a graduação em dança pelo Instituto de Cultura e Arte - ICA/UFC, podemos iniciar o novo ano na perspectiva de corpos dançantes mais implicados, artística, política e socialmente, no mundo que dele fazem parte.
  

http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=912467
  * Este artigo crítico foi publicado no Caderno 3, no jornal Diário do Nordeste, e é uma versão impressa do texto "O que queremos para a dança em 2011?", deste blog.
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