quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Dia 25: Performance de dança Virar Bicho em Fortaleza, na Cidade da Criança, no centro da cidade

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O cérebro do cérebro é a pedra que desconsidera o self, mesmo este/esta esteja lá. Mas quando isso acontece, o cérebro do cérebro deixa o movimento ser um acontecimento único. Pois, das escolhas que fiz, revelei-me, fiquei nu. Mesmo que a pedra insista em cair, e ela sempre vai cair, senti: o importante não é só o cair, é mais fundo, é o decidir pegar a pedra caída ou não. Pois se eu carrego algum peso na minha cabeça, e eu carrego sim, como fazer disso uma leveza que dê potência à criação e à ação? Isso não era para ser uma pergunta, pois não é. Uma leveza que dê potência à criação e à ação! Isso não era para ser uma exclamação. Era para ser o que, então? Não sei, sinto. Tenho me implicado nas coisas que faço e percebo outras presenças. "Homem presença, omnipresença", disseram-me. Pois quero teimar mais na definição das coisas quando elas dizem ou não se querem ser definidas. O corpo também diz, tem dito ... e, felizmente, nesse virar bicho, tenho percebido que.


Performance Virar Bicho em Fortaleza – dia 25 de outubro de 2010, às 16 horas, na Cidade da Criança (Parque das Crianças), na Cidade da Criança/ Parque da Liberdade (Rua Pedro I, s/n, Centro, por trás da Igreja Coração de Jesus, na Avenida Duque de Caxias), dentro da programação do II Encontro Terceira Margem / Bienal de Par em Par 2010.  Outras informações, acessar http://www.bienaldedanca.com/ .
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domingo, 19 de setembro de 2010

Para se relacionar melhor com a obra do outro

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Nestes dias de residência com o coreógrafo português Miguel Pereira, em Teresina, pelo coLABoratório 2010, coloquei-me um desafio: assistir os três dias de apresentações da Mostra Disseca, do Núcleo Dirceu, com os trabalhos Jogo de Dentro, de Wilena Weronez, e Mefisto Brasileiro, de Fábio Crazy da Silva. A idéia surgiu dos próprios criadores e da produção da temporada (Elielson Pacheco, em especial), quando me convidaram para fazer a mediação de uma conversa com o público no último dia, domingo, 29 de agosto.

Assisti o primeiro dia e postei um texto como forma de provocação, com impressões minhas das obras sem ter lido nada sobre elas: Para início de conversa: Corpos criam fluxos distintos. Foi uma experiência interessante para eu perceber a lógica operativa dos criadores e a autonomia das obras, o que ajudou nas duas apresentações seguintes. Uma espécie de mergulho no processo público de uma obra artística, como também refletir sobre "fluxos de performatividade", assunto proposto por Marcelo Evelin como comentário do texto acima citado e que tem a ver com "energia performativa" (um confronta-se comunicativo com quem assiste a gente).

Aliás, a relação com o público foi algo que gerou boas entradas na conversa do último dia. Em especial, uma frase de uma menina de 11 anos que, durante Jogo de Dentro, olhou pra mim e exclamou: É só isso! Ou quando, também no segundo dia, um casal levantou-se de repente, logo no início de Mefisto Brasileiro, dada a nudez provocativa de Fábio. Na verdade, quem saiu foi o rapaz, puxando pela mão sua namorada que, mesmo atarantada, queria assistir o espetáculo, evidenciando que a nudez ainda é um tabu-totem da contemporaneidade.

Este meu experimento crítico não se esgota aqui e já estou a elaborar o que entendo como uma reflexão mais aprofundada e que tem uma força relacionada com o procedimento que escolhi, que foi assistir os três dias de trabalhos, dando para cada dia um “objetivo” diferente.

De antemão, já percebo melhor o que é se relacionar com o trabalho do outro sabendo que, como criador, estou também atravessado por inquietações artísticas minhas. Como então não confundir e fazer confluir tudo isso como experiência de dança? Considero que é pelo cuidado em não projetar no outro o que é nosso, mas partir de nossas pessoalidades para expandir horizontes, fazer pontes, qualificar o discurso, implicar-se nas coisas. E, principalmente, convocar pra nós mesmos aquilo que nos mobiliza e, ao mesmo tempo, distinguir o que é a inquietação do outro, contextualizando-a na própria obra.

Até porque no contexto colaborativo em que me encontro, tenho percebido níveis diferentes de comprometimento e, a partir disso, venho buscando pensar numa possível "Ecologia de Saberes", discussão vinda do sociólogo Boaventura de Souza Santos e que tanto tem perpassado algumas conversas diárias, por exemplo, com Ana Cecilia, artista colombiana, e Marcelo Evelin, um dos diretores artísticos do coLABoratório e integrante-fundador do Núcleo Dirceu; como também com a leitura atenta do recente livro de Christine Greiner, O corpo em Crise (Editora Annablume).

PS: Texto publicado originalmente no site do coLABoratório no dia 28 de agosto de 2010, com o título Para se relacionar melhor com a obra do outro ou a crítica de dança como atuação artística.
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