segunda-feira, 10 de maio de 2010

De cócoras com Andréa Sales – uma vivência colaborativa

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Durante os seis meses da pesquisa Casa, de Andréa Sales, exercitei o que venho esboçando como “acompanhamentos” no sentido de um colaborar como perceber a singularidade do encontro – o estar-com. No caso dela, definimos como "colaboração artística".

Tais acompanhamentos são hipóteses que ganharam força durante o mestrado em dança, que finalizei em junho de 2008, e que tem gerado bons desdobramentos colaborativos: uma critica de dança preocupada com os processos – e não somente com as configurações – e com o investigar no corpo – e não somente na ponta do lápis (ou apenas dedo no teclado). 


Assim, de outubro de 2009 até março de 2010, eu e Andréa construímos à distancia (pois eu estava morando em Lisboa) uma ambiência investigativa muito rica no que se refere ao mapeamento dos estados corporais na posição de cócoras. O que evidenciou a maturidade de Andréa sobre a fisicalidade do corpo e minha disposição em acompanhar processos.

Percebi também aspectos potentes relacionados ao comportamento humano nos deslocamentos culturais. Isso porque o cotidiano mostrou-se como sintomático no estar de cócoras, foco da pesquisa. Os afazeres domésticos do pai, a casa onde mora com ele, a Praça Jose de Alencar, a comunidade indígena nas proximidades de Fortaleza, um documentário sobre mulheres indígenas e o hábito de ficar de cócoras etc.

Eu mesmo me transformei nesse processo, nessa atenção ao estar acocorado. É uma posição forte, desestabiliza o corpo e, ao mesmo tempo, nos conecta à ancestralidade do ser humano. As fotos aqui publicadas são frames de uns vídeos que enviei para Andréa como experimento do que discutiíamos (via e-mail e telefone) no meu próprio corpo na forma de movimento e de dança.

A cada conversa, a cada discussão, eu testei e experenciei no meu corpo, dando uma espécie de feedback para ela. Às vezes, na forma de texto mesmo ou algum artigo que considero interessante. Outras vezes, foi um vídeo demonstração ou fotos interessantes. Construímos certa cumplicidade no questionar-se sobre as leituras, que vai desde termos novos até experiências anteriores que se transformam com novas informações e conceitos.

Logo, a participação como colaborador artístico vem transformando o modo de me relacionar com a dança que é feita no Ceará. Os espetáculos ainda me interessam, não tanto como produtos finais, mas como momentos importantes onde é possível perceber as estabilidades de um processo de pesquisa e criação em dança.

Tanto que constatei no fazer dança de Andrea as similaridades e distinções entre pesquisa artística e pesquisa acadêmica. Alguns e muitos dos procedimentos são parecidos, mas o ponto que diferencia é a forma como se desdobram as questões. Ou indo mais fundo, a sutileza da criação que, muitas vezes, passa desapercebida.

Assim, cada texto publicado no blog da pesquisa Casa é um indício de como se configura tanto a investigação artística como essa minha hipótese de acompanhamento como colaboração artística.

Partiram de constatações da própria Andréa. Ganharam potência nas conversas, nos vídeos trocados, nos emails enviados e respondidos. E, nesta fase pós demonstração de processo, são valiosos materiais que já tem certa estabilidade rumo à uma dramaturgia corporal e ao fortalecimento das escolhas futuras.
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quinta-feira, 8 de abril de 2010

Os artistas portugueses já têm corpo!?

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Foi publicada recentemente, aqui em Lisboa (17/03/2010),  uma matéria no caderno cultural Ípsílon, do Jornal Público que me ajudou a conhecer um pouco o contexto artístico da capital portuguesa. Mas foi o título que me chamou-me atenção pelo título para entender a abordagem jornalística presente no conteúdo, com aspectos positivos e outros não tanto.

"Os portugueses já têm corpo e os criadores encontraram-no" faz-me pensar como o corpo é ainda tido como instrumento para algo ou recipiente onde tudo pode-se colocar nele ou tirar dele. Ao mesmo tempo, importante atentar para o fato desse entendimento ainda ser um lugar comum quer seja no jornalismo cultural, quer seja no fazer artístico.

O que vale nossa reflexão sobre o conteúdo da matéria, um estar ciente sobre o que pensam os chamados artistas performativos - dança, música, teatro, ópera, artes visuais etc, terminologia mais habitual no contexto português. (No Brasil, o termo padrão é artes cênicas, isso para teatro, dança, performance e circo, no papel, porque, na prática, artes cênicas é geralmente sinônimo de teatro.)

No conteúdo, na íntegra no link logo abaixo, é possível ter uma nocão geral desse "ter um corpo", como também perceber que só são considerados artistas que "têm um corpo" os que têm certa consciência do corpo na criação, aqueles que trabalham com questões de gênero e homoerotismo, a seguir linhas de pensamento como a teoria Queer ou que tem a sexualidade como foco investigativo.

O que é bem válido, quando falar de sexo é um grande tabu, mas não se limita a isso. O corpo humano é de uma complexidade imensa e são muitas as perspectivas de trabalhá-lo como tema, que não é apenas a questão comportamental a partir do gênero e das sexualidades, sinto. A morte também é um tema pertinente para se repensar o estatuto do corpo em nosso tempo. Nesse sentido, a matéria poderia ter expandido mais a discussão, mas, ao que parece, preferiu uma abordagem mais generalista.

No entanto, o mote para a matéria, apesar dos poréns do título e da abordagem generalista, é estrategicamente inteligente e mostra-se, então, mais coerente com o que anuncia, passando por artístas e pesquisadores que, felizmente, deram boas contribuições. Explico: a editoria do caderno cultural escolheu como pretexto para a matéria o fato de, há quase vinte anos, o sociólogo e crítico de arte português Alexandre Melo ter escrito que "os portugueses não têm corpo", ou seja, que os portugueses "não reflectiam" sobre o corpo e sobre a sexualidade. Logo, percebe-se melhor o foco, como também outro aspecto emerge, o papel da crítica de arte como documento vivo.

Um texto jornalístico (reportagem) que, antes de lido, merece algumas provocações para aguçar o olhar, deixá-lo menos inocente:

O corpo de Portugal mudou?
Um corpo omisso? Já encontrou-no?
O corpo é o espaço onde tudo se altera?
Tenho um corpo ou sou um corpo?
Se tenho, que corpo é esse?
Se sou, que corpo é esse?
O corpo é instrumento?

LEIA A MATÉRIA NA INTEGRA: Os portugueses já têm corpo e os criadores encontraram-no
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