domingo, 30 de novembro de 2008

Cia. Dita (con)testa o fazer coreográfico *



De que se trata o exercício coreográfico em dança hoje? A pergunta pode parecer simples quando feita a coreógrafos, bailarinos, dançarinos, intérpretes e outros profissionais da dança. No entanto, é uma questão que permite uma gama de respostas. Mais que isso, quando formulada no contexto de uma “dança teatral” (ou espetáculo de dança), a força do seu fazer denuncia ambigüidades e contradições. No caso de Óbvio, novo trabalho da Cia. Dita, que encerra temporada neste final de semana, no teatro do Sesc Senac Iracema, tal reflexão é permeada pela idéia “coletivo sem fala”: cinco corpos tecnicamente preparados que se lançam no desafio de mostrar poéticas individuais em quatro solos, tendo o olhar como estratégia para se conectar ao outro, dentro ou fora da cena.

Mas o que é, então, uma coreografia? Apenas ação de executar passos ordenados? Como os processos são visíveis nas resultantes artísticas? E a técnica, é simplesmente estar apto, algo que determina a criação? O que está por trás das escolhas feitas por quem coreografa, onde quer chegar ou para onde quer levar o público? E mais, como isso repercute (e é assumido ou não) nos corpos dos bailarinos? É possível um coletivo sem fala?

Diante disso, a recente montagem da Cia. Dita, dirigida pelo coreógrafo Fauller, é um marco em sua trajetória. Primeiro porque opta por outro formato de apresentação mais próximo do público. Segundo, os passos de balé são assumidos como escolhas estéticas intimamente relacionadas com idéias coreográficas e desejos artísticos. Terceiro, os bailarinos-intérpretes Wilemara Barros, Marcelo Hortêncio, Reinaldo Afonso e Lairton Freitas (convidado da Cia. de Dança de Paracuru) são co-criadores, ou seja, autobiografia e criação alimentando-se mutuamente. Por conseguinte, as resultantes são corpos que testam e contestam o que vem a ser o dançar junto(s) e, com isso, propõe uma alteração do entendimento do “coreografo” como função rígida para o “coreográfico” como espaço de articulação de atividades, processos, produtos, dramaturgia, ensino, etc.

Mas que tipo de dança queremos fazer e ver? Quais são as (im)possibilidades de criar? O que fazemos do que criamos? Que nível de atenção devemos ter para perceber emergências de outros significados? Como transformar ação política em formas de dança, individual e coletivamente? Do que necessitamos para abordar certas questões através do trabalho coreográfico? Como desromantizar as (nossas) práticas artísticas?

Os trabalhos anteriores da companhia sinalizam para tais inquietações. Destaco alguns momentos. De-Vir (2002), obra de maior repercussão, foi reapresentada na edição deste ano do Festival Internacional de Dança – FID, em Belo Horizonte (MG), como também, ano passado, foi o alicerce para uma residência artística que resultou na remontagem do trabalho, fazendo parte ainda do Festival Move Berlim 2007, na Alemanha. Em 2005, junto com Carlos Antonio dos Santos (CE) e Wagner Schwartz (MG), Fauller estreou Cover, de Rachid Ouramdane, na capital cearense e depois saiu em temporada pela Europa. Atualmente, a Dita é mantida com apoio anual vindo de edital da Seculfor (antiga Funcet), na categoria manutenção de grupos, o que vem possibilitando a realização de atividades de formação e residências artísticas.

Os deslocamentos dessa temporada também são oportunos. Estreou no mesanino do Alpendre, na Rua José Avelino, onde a interferência sonora era intensa. Depois se apresentaram na sala de dança do curso técnico do Senac, que funciona no Sesc Senac Iracema, cujo isolamento acústico criou outra ambiência para o trabalho. Agora, no mesmo local, encerra temporada, mas no teatro, formato mais próximo da caixa preta (mas sem o nível alto do palco italiano), enriquecendo mais ainda o que pode ser material futuro de investigação. Justamente para ponderar: somos efetivamente os agentes de nossa própria vida e das suas condições?

Hum..., tudo isso parece óbvio, mas não é.

*Esta crítica foi publicada no Caderno 3, do Diário do Nordeste (CE), em 29.11.2008. Disponível em http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=594059.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

As Artes Visuais têm muito a aprender
com a Dança, não só o contrário



O evento Terceira Margem, que aconteceu nos últimos dias de outubro desse ano, em Fortaleza, pontuou a relação corpo e imagem para articular artes visuais e dança, como sua convocatória enfatizou, ao selecionar mostras de vídeo, performance, instalação e intervenção urbana. Mesmo não se tratando de um evento de dança, ele está diretamente vinculado à dança quando se fez realizável como ação ligada à Bienal Internacional de Dança do Ceará, nos seus anos não-oficiais (Bienal de Par em Par). Logo, não tem como "não olhar" para este evento cultural sem essa desconfiança-questionamento.

Dessa breve e frágil introdução, é que levanto a seguinte questão pertinente para a dança como campo de investigação artística, cientifica e, mais abrangente, a acadêmica: como pensar as especificidades da Dança, a partir da relação com as Artes Visuais? Em especial, o que vêm a ser uma instalação ou intervenção urbana que se configure como um conceito de e para a dança, mesmo que provisório e circunstancial?

Partindo do pressuposto de que a dança é uma ação cognitiva e performativa (e não simplesmente performática), levanto algumas hipóteses já demonstradas por artistas brasileiros, alguns deles presentes no Terceira Margem, hipóteses estas que aqui não se esgotam, mas que funcionam como ativadores de debate, já que não é possível abarcar tudo sozinho e num só momento. Logo, ressalto, o que almejo é criar uma ambiência para um bom diálogo. Vamos lá, então.

Martha Soares e seu “Banho”, por exemplo, foi uma boa oportunidade de se perceber a dança na versão instalação, apesar de sua apresentação não ter tido a mesma força artística quando o foi em sua estréia, em 2000, pelo Rumos Dança, projeto do Itaú Cultural, muito por conta da “nova” organização cênica – espaço menor e em conjunto, distinto do que foi anos atrás, em espaços físicos separados, onde o publico transitava entre eles. O que foi também um bom teste para o Espaço Cultural da Caixa, ao lado do Centro Dragão do Mar.

Outro exemplo é Paulo José, com seu "Estudo para Cinderela", que aproximou mais do que pode ser uma instalação de dança quando vista como algo que se organiza no corpo em ação, de uma corporalidade que é resultante de processos e acordos em tempo real. Quero dizer, uma dança que, para ser dança, acontece no e pelo corpo.

Agora pensemos nos trabalhos de Vera Sala com seu corpo-objeto em investigação há alguns bons anos, desde seu "Estudo para Macabéia", até mesmo para refletirmos sobre as singularidades desses dois trabalhos que trazem em comum a idéia de “estudo”, mas com enfoques-personagens bem distintos: Macabéia e Cinderela. Ou melhor, um estudo da lógica-corpo dessas duas personagens: uma que se nega mas não se anula por completo; a outra, que tem o “sapato de cristal” como dispositivo para o corpo organizar-se e trazer à tona as relações metafóricas (não só por analogia) já presentes no imaginário coletivo de todos nós, e, de modo geral, o encontro com a dita felicidade (diga-se, o dito príncipe encantado).

Já para ser intervenção, talvez tenhamos de olhar de outro modo o "Estudo para Cinderela", que se nomeia (e foi nomeado) como “intervenção”, para que o mesmo se perceba e se questione, seja percebido e questionado. Pois acredito que intervir não é simplesmente sugerir relações, nem se validar somente por ter sido realizado nos terminais de ônibus de Fortaleza.

Assim, para se fazer intervenção, é necessário criar estratégias eficientes para que a mesma aconteça. Algo que, em seu processo, precisa de uma boa observação do local, algumas ponderações sobre que ênfases-hipóteses são desejadas pelo artista e o ato vivo (e político) da intervenção.

Continuemos...